Gulbenkian/70 Anos: Fundação representou um conjunto de ministérios – Irene Pimentel

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Executive Digest com Lusa

*** Ana Mendes Henriques, da agência Lusa ***



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Lisboa, 19 abr 2026 (Lusa) – A historiadora Irene Pimentel defendeu que a Fundação Calouste Gulbenkian representou para a sociedade portuguesa do Estado Novo um conjunto de ministérios que o regime não provia, da saúde à educação, passando pelas artes e pela ciência.


“A Fundação instalar-se aqui foi isso tudo, porque, de facto o Estado Novo não era um Estado social, tudo menos isso. A previdência não existia, só para alguns, e realmente ele ajudou hospitais, montou hospitais, montou enfermarias, investigação também, ministro da investigação científica”, disse Irene Flunser Pimentel, em entrevista à agência Lusa a propósito do legado de Calouste Gulbenkian.


Os estatutos da Fundação foram aprovados e publicados no Diário do Governo em 1956 (decreto-lei 40690, de 18 de julho), na sequência da morte do fundador no ano anterior.

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“Declara-se estar à frente de um belo exemplo de compreensão da função social da riqueza, a opor ao egoísmo que parece assenhorar-se do mundo e que tende a sacrificar a noção superior de que a fortuna tem deveres na ordem moral que não pode esquecer, nem declinar”, destacava-se no preâmbulo, citado por Irene Pimentel.


Em meados dos anos 50, Portugal era “uma sociedade miserável”, recordou a historiadora, autora de uma cronologia para uma publicação que assinalou os 50 anos da Fundação, coordenada pelo sociólogo António Barreto.


No retrato que é feito da sociedade portuguesa nessa obra, sobressai o facto de menos de 17% da população ter banho ou duche em casa. Os partos com assistência médica e em estabelecimentos hospitalares eram apenas 15% do total.

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“Não havia eletricidade e água na maior parte das casas no campo”, acrescentou a investigadora, especialista em História Contemporânea.


Irene Pimentel reconheceu, porém, que a maior influência da Fundação Gulbenkian poderá ter sido nas elites, devido ao investimento na educação, na investigação e na cultura.


“Quem tinha acesso à cultura antes do 25 de Abril, era uma pequena parte, era uma elite, mas houve um aspeto muito importante, entre vários: as bibliotecas itinerantes”, afirmou.


Além da famosa carrinha que levava os livros a cada bairro, a cada localidade, foram criadas bibliotecas “a nível do país inteiro”, referiu Irene Pimentel.


“Quase diria que eram os ministérios que o regime não tinha, no sentido de dar às pessoas coisas como a saúde, a investigação, educação, cultura”, sustentou a historiadora, ao enumerar os serviços e atividades que a Fundação desenvolvia.

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“Era através da Gulbenkian que muitas pessoas acediam à cultura (…) depois há todo o trabalho de Oeiras [Instituto de Ciência] que é muito importante, com vários centros de biologia, de matemática, de estatística, uma quantidade de disciplinas que não existiam em Portugal”, referiu.


Para Irene Pimentel, o sucesso da Gulbenkian está igualmente ligado a uma boa administração: “Admiro as pessoas, essa administração também nunca esteve quieta e sentada em cima do dinheiro”.


A Fundação promoveu um largo conjunto bolsas para estudos fora de Portugal. “Houve imensas, desde música a outras disciplinas que não havia aqui. Pintores, músicos, por aí fora, foram para Paris estudar ou para Londres”, exemplificou.


O pintor Manuel Cargaleiro, natural de Vila Velha de Ródão, foi um desses bolseiros. Num testemunho publicado pela fundação com o seu nome, com a chancela da Gulbenkian, assumiu a importância da bolsa que lhe deu Paris a conhecer e reconheceu que outros artistas poderiam ter o talento, mas não tiveram a oportunidade.


Para Irene Pimentel, a Gulbenkian foi para Portugal uma Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), antes de esta existir.


“A FCT é do período do Mariano Gago, muito posterior ao 25 de Abril, e a Gulbenkian já cumpria esse papel antes e depois” da revolução, concluiu.


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