A divulgação de milhões de documentos judiciais nos Estados Unidos voltou a colocar no centro da atualidade o caso de Jeffrey Epstein, revelando em detalhe a dimensão da sua rede de contactos e influência. Uma análise aprofundada feita pelo El País permitiu identificar 137 homens e mulheres com ligações comprovadas ou documentadas ao multimilionário, abrangendo áreas como a política, finanças, ciência, cultura e realeza.
Os registos agora tornados públicos mostram que a presença nos documentos não implica, por si só, qualquer envolvimento em atividades ilegais. Ainda assim, evidenciam o alcance das relações de Epstein, mesmo após a sua condenação em 2008 por crimes relacionados com prostituição de menores, pela qual cumpriu 13 meses de prisão no âmbito de um acordo judicial controverso.
Um dia típico que revela acesso às elites
Um dos exemplos mais ilustrativos desta rede é a agenda de 1 de maio de 2011, menos de dois anos após a sua saída da prisão. Nesse dia, Epstein teve encontros com diversas figuras influentes, incluindo o diplomata Terje Rød-Larsen, o executivo Nick Ribis, o jornalista Michael Wolff e o atual secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick.
O dia terminou com eventos sociais de alto nível, incluindo um jantar com o realizador Woody Allen e a sua esposa, Soon-Yi Previn, bem como encontros com figuras da ciência e do mundo empresarial. Estes contactos ilustram a facilidade com que Epstein circulava entre diferentes círculos de poder.
Núcleo duro assegurava funcionamento da rede
A análise destaca ainda um grupo restrito de colaboradores próximos que desempenharam papéis essenciais no funcionamento da estrutura. Entre eles surge Lesley Groff, a sua assistente durante quase duas décadas, que aparece mais de 163 mil vezes nos documentos, frequentemente associada à organização de viagens, eventos e movimentação de fundos.
Outro nome central é Ghislaine Maxwell, ex-companheira de Epstein, considerada pelas autoridades como peça-chave na rede de abusos e atualmente a cumprir uma pena de 20 anos de prisão. Também Karyna Shuliak, última parceira do financeiro, surge com destaque, tendo beneficiado de intervenções do próprio junto da Universidade de Columbia para garantir a sua admissão.
Figuras como o advogado Darren Indyke e o conselheiro Boris Nikolic completam este círculo próximo, com funções na gestão legal e patrimonial.
Acusações, investigações e alegados cúmplices
Entre os 137 nomes identificados, pelo menos oito foram acusados de crimes sexuais por Virginia Giuffre, incluindo o Príncipe André, Alan Dershowitz e Jean-Luc Brunel.
No caso do príncipe britânico, foi alcançado um acordo extrajudicial em 2022, estimado em cerca de 14 milhões de euros. Já Dershowitz viu as acusações retiradas pela própria denunciante, que admitiu possível erro na identificação.
Além de Maxwell, outras mulheres foram apontadas como colaboradoras na rede, incluindo Sarah Kellen, Adriana Ross e Nadia Marcinkova, algumas também alvo de processos judiciais ou denúncias.
Ligações à política, negócios e academia
Mais de metade dos contactos identificados pertencem às áreas política e financeira, mas a influência de Epstein estendia-se igualmente ao meio académico. Entre os nomes referenciados estão o geneticista George Church e o psicólogo Dan Ariely, com quem manteve contacto durante anos.
Também figuras como Bill Clinton, Donald Trump e Bill Gates surgem associadas ao financeiro em diferentes momentos, muitas vezes anteriores às denúncias públicas. Em vários casos, os próprios envolvidos afirmam que as relações terminaram antes da divulgação dos crimes.
A lista inclui ainda celebridades como Naomi Campbell, empresários como Elon Musk e intelectuais como Noam Chomsky, que chegou a aconselhar Epstein sobre gestão de imagem pública.
Consequências globais e impacto institucional
A divulgação dos documentos desencadeou investigações e consequências legais em vários países. Pelo menos 16 pessoas enfrentaram processos judiciais ou investigações, enquanto outras 56 sofreram impactos pessoais ou profissionais.
No Reino Unido, o caso provocou uma das maiores crises da monarquia recente, envolvendo diretamente o príncipe André. Em França, levou à abertura de investigações contra figuras políticas e diplomáticas, incluindo Jack Lang. Já na Noruega, membros da elite política e diplomática enfrentaram acusações e demissões relacionadas com o escândalo.
No meio académico, instituições como Harvard e MIT abriram investigações internas, resultando em demissões e encerramento de programas financiados por Epstein.
Apesar da dimensão das revelações, Ghislaine Maxwell permanece, até ao momento, a única pessoa condenada diretamente no âmbito da rede de abusos. Entretanto, milhões de documentos continuam por analisar, várias investigações permanecem em curso e mais de mil vítimas aguardam desenvolvimentos judiciais.













