Como duas guerras estão a separar a Europa e os Estados Unidos

Segundo diplomatas europeus ouvidos pela publicação ‘POLITICO’, existe o receio de que Trump possa mesmo retaliar contra aliados europeus por não apoiarem de forma mais firme a sua estratégia no Irão

Francisco Laranjeira

A guerra no Irão está a lançar uma nova sombra sobre o apoio ocidental à Ucrânia, com líderes europeus a temerem que Donald Trump possa reduzir ou até cortar o envolvimento dos EUA em Kiev. De acordo com o jornal ‘POLITICO’, vários Governos da União Europeia receiam que o foco crescente de Washington no Médio Oriente acabe por desviar recursos e atenção do conflito com a Rússia.

Segundo diplomatas europeus ouvidos pela publicação online, existe o receio de que Trump possa mesmo retaliar contra aliados europeus por não apoiarem de forma mais firme a sua estratégia no Irão, nomeadamente através de cortes na ajuda militar e de inteligência à Ucrânia. A possibilidade de uma rutura na relação transatlântica está, por isso, a ser levada a sério em Bruxelas.

A pressão tem sido visível. Nos últimos dias, Trump criticou duramente os aliados europeus por não contribuírem para desbloquear o Estreito de Ormuz, uma rota vital por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Chegou mesmo a questionar o papel da NATO, classificando-a como um “tigre de papel” e acusando os parceiros de falta de compromisso.

Ao mesmo tempo, a guerra no Irão está a consumir recursos militares essenciais, como sistemas de defesa aérea e mísseis, que são cruciais para a Ucrânia resistir à ofensiva russa. Diplomatas alertam para o risco de se criar uma lógica de “ou um ou outro”, em que os Estados Unidos deixam de ter capacidade — ou vontade — para sustentar dois conflitos em simultâneo.

Mais adiante, o ‘POLITICO’ refere que Moscovo chegou a propor a Washington uma espécie de troca: reduzir o apoio de inteligência à Ucrânia em troca de um afastamento russo do Irão. Embora a proposta tenha sido recusada, o simples facto de ter sido colocada em cima da mesa reforça os receios de que os dois teatros de guerra estejam a tornar-se interdependentes.

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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já admitiu ter um “sentimento muito negativo” sobre o impacto da escalada no Médio Oriente, alertando que as negociações de paz estão a ser sucessivamente adiadas.

Perante este cenário, os líderes europeus têm tentado fazer uma gestão delicada da relação com Trump. França, Reino Unido e outros aliados têm sinalizado apoio — ainda que limitado — às operações no Estreito de Ormuz, numa tentativa de manter os Estados Unidos comprometidos com a Ucrânia.

Apesar disso, o envolvimento europeu permanece cauteloso. Países como França e Alemanha afastam, para já, uma participação direta no conflito com o Irão, apostando antes em soluções diplomáticas, incluindo possíveis iniciativas nas Nações Unidas.

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No entanto, como admite um diplomata europeu citado pelo ‘POLITICO’, a estratégia passa também por “gerir o homem” — uma referência direta à imprevisibilidade de Trump. Porque, no atual equilíbrio geopolítico, a perceção pode ser tão importante quanto a realidade.

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