A escalada do conflito entre Estados Unidos/Israel e o Irão voltou a colocar a geopolítica no centro das atenções dos mercados financeiros — e a reação foi imediata. As bolsas europeias abriram em queda, o ouro valorizou e o petróleo disparou, refletindo um movimento claro de fuga ao risco.
Mas o impacto não é homogéneo. Há setores particularmente vulneráveis.
Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, destacou à ‘Executive Digest’ que a aviação está entre os segmentos mais expostos. “As companhias aéreas são diretamente afetadas pela subida do petróleo. As low-cost e as transportadoras com rotas Europa-Ásia podem sentir um impacto mais forte”, explica.
Também o setor dos transportes enfrenta pressão acrescida, não apenas pelo custo do combustível, mas pelo aumento dos prémios de seguro e pelo risco de disrupção nas rotas comerciais ligadas ao Estreito de Ormuz.
As indústrias intensivas em energia — como químicos, materiais de construção e indústria pesada — surgem igualmente na linha da frente. “São setores cuja estrutura de custos é altamente sensível a oscilações nos preços energéticos”, sublinha.
Em sentido oposto, o setor da defesa volta a ganhar protagonismo. “A defesa tem sido, a par do ouro, um dos maiores beneficiários da crescente incerteza geopolítica e da tendência global para o rearmamento. Esta escalada vai intensificar essa procura no curto prazo”, afirma o analista.
Empresas europeias como Rheinmetall, BAE Systems, Thales, Leonardo e Saab registaram fortes subidas, enquanto nos Estados Unidos nomes como Lockheed Martin, Northrop Grumman e RTX (Raytheon) avançaram em pré-market.
O ponto crítico continua a ser o Estreito de Ormuz. “Cerca de 25% do petróleo mundial passa por essa rota. Um bloqueio efetivo teria impacto imediato e potencialmente significativo nos preços da energia e, por arrasto, nas bolsas”, alerta.
O aviso do Irão de que o trânsito na região já não é seguro levou grandes operadores marítimos, como a Maersk e a MSC, a suspender ou desviar rotas, aumentando a tensão nos mercados energéticos.
Perante este cenário, os investidores nacionais tendem a reforçar posições em setores defensivos — utilities, energia e infraestruturas — privilegiando empresas com dividendos estáveis e fluxos de caixa robustos, além de ativos de refúgio como o ouro.
Petróleo pode ultrapassar os 100 dólares
Paolo Zanghieri, economista sénior da Generali AM, considera que a suspensão do trânsito em Ormuz poderá reduzir a produção global de petróleo entre 15% e 20%. “Impedir que os preços ultrapassem os 100 dólares por barril depende da reabertura do estreito”, afirma.
Segundo o analista, uma interrupção parcial — com ataques esporádicos ou minagem da rota — poderia elevar os preços para 90 dólares ou mais. Um bloqueio prolongado ou ataques a instalações petrolíferas no Golfo poderiam gerar uma subida ainda mais acentuada.
O Brent já subia cerca de 8% para 78,22 dólares (cerca de 72 euros), enquanto o WTI iniciou a semana quase 10% acima do fecho anterior, refletindo o nervosismo dos investidores, segundo Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe.
“Quanto mais tempo o conflito persistir e o petróleo do Golfo permanecer retido na região, maior a probabilidade de os preços se aproximarem dos 100 dólares”, alerta Evangelista.
Choque significativo, mas não desestabilizador
João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa, considera que os mercados enfrentam um “choque significativo, embora ainda não desestabilizador”.
Os principais índices europeus recuaram entre 2% e 3%, enquanto o dólar e os metais preciosos reforçaram o seu papel defensivo.
Christian Schulz, economista-chefe da AllianzGI, afirma que o impacto imediato traduz-se numa “reavaliação dos riscos extremos”. “Os ativos de risco descem, os ativos de refúgio sobem, mas tudo depende de saber se o conflito se alastrará a uma instabilidade regional mais ampla.”
Mesmo que um encerramento sustentado de Ormuz permaneça improvável, Schulz admite que os preços do petróleo deverão continuar a subir. Títulos do Tesouro dos EUA, dólar e ouro poderão apreciar-se, enquanto as ações permanecem vulneráveis.
Setores ganham e perdem com a tensão
A diferenciação setorial é evidente. O setor europeu da Energia acumula ganhos de cerca de 21% este ano e mantém-se próximo dos máximos de 52 semanas. Utilities sobem mais de 15%, reforçando o perfil defensivo.
Em sentido inverso, Media, Automóvel e Viagens & Lazer continuam pressionados, refletindo maior exposição ao abrandamento económico e à inflação energética.
Para João Queiroz, a lição é clara: “Episódios de tensão geopolítica geram volatilidade de curto prazo, mas também criam oportunidades para investidores com horizonte alargado.”
A magnitude do impacto final dependerá menos do choque inicial e mais da sua duração — e sobretudo da estabilidade (ou não) do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial e uma parte significativa do gás natural liquefeito.
Por agora, os mercados ajustam-se. Mas o verdadeiro teste poderá estar nos próximos dias.














