Tempestade faz aumentar até 50% o combustível nas florestas e agrava risco de incêndios este verão

A devastação provocada pelas recentes tempestades não terminou com a passagem dos ventos e da chuva intensa. Pelo contrário, segundo especialistas em floresta e incêndios, a herança deixada no terreno (milhares de toneladas de árvores arrancadas, ramos partidos e solos encharcados) pode traduzir-se num agravamento significativo do risco de incêndios já no próximo verão.

Revista de Imprensa
Fevereiro 26, 2026
10:27

A devastação provocada pelas recentes tempestades não terminou com a passagem dos ventos e da chuva intensa. Pelo contrário, segundo especialistas em floresta e incêndios, a herança deixada no terreno (milhares de toneladas de árvores arrancadas, ramos partidos e solos encharcados) pode traduzir-se num agravamento significativo do risco de incêndios já no próximo verão. A acumulação de biomassa no solo poderá elevar em cerca de 50% o combustível disponível em algumas áreas, criando condições para fogos de rápida propagação, num cenário que exige intervenção imediata.

De acordo com o Público, investigadores e ambientalistas convergem na urgência da resposta. Paulo Fernandes, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), afirma que o vento forte “vai trazer material ao solo”, originando “um acréscimo de combustível para fogos futuros”, sobretudo no que toca a material fino — folhas e ramos — que “vai secar rapidamente”. Já António Correia, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, alerta que “todo este material mais fino que ainda está na floresta vai secar e ser combustível no Verão”, acrescentando que a combinação de solos saturados, subida das temperaturas e crescimento exuberante da vegetação espontânea cria “dois anos muito preocupantes na questão dos incêndios”. Francisco Ferreira, da associação Zero, reforça o aviso, classificando a biomassa acumulada como um risco “dramático” para a propagação de fogos, que poderá materializar-se até antes do verão, caso surja um período seco precoce.



Os números ajudam a dimensionar o problema. Em zonas severamente afetadas, o aumento de combustível fino poderá atingir mais dez a 15 toneladas por hectare, somando-se às 20 ou 30 toneladas já habitualmente existentes. Paulo Fernandes lembra que, “em condições extremas, um incêndio é incontrolável a partir das dez toneladas por hectare”. A solução passa, segundo os especialistas, por iniciar de imediato operações de limpeza. “O essencial é começar já as limpezas”, defende Fernandes, embora admita que a extensão total dos danos ainda não está totalmente quantificada. Contudo, Francisco Ferreira reconhece que não será possível remover toda a biomassa e propõe uma estratégia dual: um plano A, para retirar o máximo possível de material combustível, e um plano B, assente na criação de mosaicos com zonas intervencionadas que introduzam descontinuidades na paisagem, podendo incluir fogo controlado quando adequado do ponto de vista ecológico e económico.

Se o material fino representa um perigo imediato, a madeira grossa — troncos e grandes ramos — configura uma ameaça prolongada. Segundo Paulo Fernandes, este combustível poderá manter o risco ativo durante “cinco, dez anos, ou mais”, caso não seja removido ou triturado, apontando o exemplo de Pedrógão Grande, onde permanece abundante madeira caída desde os incêndios de 2017. António Correia acrescenta outro fator de preocupação: a proliferação de pragas favorecida pela combinação de humidade e madeira morta. Francisco Ferreira recorda ainda que, ao permanecer no solo, a madeira perde valor económico e aumenta o risco sanitário e ambiental. O debate estende-se ao futuro do pinhal de Leiria, com posições divergentes entre a regeneração natural, o regresso ao sistema dunar e a aposta numa floresta diversificada, adaptada às condições locais.

No plano urbano, as tempestades evidenciaram fragilidades no ordenamento do território, desde árvores plantadas em espaços inadequados até cidades excessivamente impermeabilizadas, que potenciaram cheias e quedas. Especialistas defendem que a reconstrução deve integrar critérios de adaptação climática, incluindo corredores verdes, espécies mais resistentes ao calor e relocalização de infraestruturas em zonas menos vulneráveis. Quanto ao verão, nenhum dos especialistas antevê um cenário sem incêndios. “Estamos numa zona mediterrânica, o normal é existirem fogos”, lembra António Correia. Paulo Fernandes sublinha que 2025 já registou os dois maiores incêndios de sempre e que o intervalo de sete a oito anos após os grandes fogos de 2017 — período geralmente associado a menor risco — já terminou. A conclusão é inequívoca: a prevenção não pode esperar. Como resume Fernandes, a intervenção “já tinha de ter sido ontem”.

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