Vinte e cinco anos após os atentados de 11 de Setembro contra os Estados Unidos, a Al-Qaeda apresenta uma dimensão e um modelo de funcionamento profundamente distintos. Estimativas recentes indicam que o grupo conta atualmente com cerca de 25 mil potenciais combatentes, um número cinquenta vezes superior ao registado em 2001, quando teria aproximadamente 500 militantes ativos, funcionando agora através de uma vasta constelação de filiais regionais com elevada autonomia operacional.
Segundo o Público, estes dados baseiam-se em informações recolhidas por serviços de espionagem internacionais, incluindo o MI6, e foram apresentados por Colin Smith, coordenador do Apoio Analítico e das Sanções das Nações Unidas, durante um briefing no Royal United Services Institute (RUSI). “Eles não baixaram as armas. Continuam a planear ataques contra nós”, alertou Smith, sublinhando que ignorar a ameaça representa um risco significativo.
A analista de segurança e risco geopolítico do RUSI, Joana de Deus Pereira, reforça que o crescimento deve ser interpretado sobretudo em termos proporcionais. “O importante não é o número exato, é a proporção: falamos de uma constelação de filiais e redes locais que, no conjunto, é dezenas de vezes maior do que o núcleo de 2001”, explicou. De acordo com relatórios recentes do Conselho de Segurança da ONU, a presença mais significativa de militantes afiliados concentra-se atualmente no Corno de África, através da Al-Shabaab, no Sahel — nomeadamente no Mali, Burquina Faso e Níger, sob a influência do JNIM — e no Iémen, onde a AQAP continua ativa apesar de perdas na liderança.
Esta descentralização estratégica traduz-se também numa diversificação das táticas. Grupos afiliados têm intensificado raptos de cidadãos estrangeiros para obtenção de resgates, sobretudo no Mali, permitindo financiar operações e demonstrar controlo territorial. A ONU refere que, só no último ano, mais de vinte estrangeiros foram sequestrados, incluindo um membro de uma família real do Golfo, cujo resgate terá rondado os 50 milhões de dólares. Para os analistas, estas ações servem tanto para angariar recursos como para enviar uma mensagem clara sobre a capacidade de paralisar cadeias logísticas e impor custos elevados à presença estrangeira.
Paralelamente, a propaganda e o recrutamento online tornaram-se centrais na estratégia do grupo. O uso intensivo de redes sociais, canais encriptados e até plataformas de jogos como Discord ou Roblox permite alcançar públicos mais jovens em várias línguas, recorrendo a traduções apoiadas por inteligência artificial. Segundo Joana de Deus Pereira, esta fragmentação em “micro-ecossistemas” dificulta a monitorização e esbate a fronteira entre socialização e radicalização, num contexto em que alguns simpatizantes são agora incentivados a realizar ataques nos países de origem antes de se deslocarem para zonas de conflito.














