“Vamos ter de usar pombos-correios”: Tropas da Rússia desesperam sem Telegram nem Starlink

As forças russas destacadas na linha da frente na Ucrânia enfrentam sérias dificuldades de coordenação depois de o serviço de mensagens Telegram ter sido fortemente condicionado em todo o território russo e de vários terminais de internet Starlink terem deixado de funcionar.

Pedro Gonçalves

As forças russas destacadas na linha da frente na Ucrânia enfrentam sérias dificuldades de coordenação depois de o serviço de mensagens Telegram ter sido fortemente condicionado em todo o território russo e de vários terminais de internet Starlink terem deixado de funcionar, um duplo golpe tecnológico que está a comprometer comunicações operacionais, logística e até a segurança das próprias tropas.

O cenário está a gerar alarme entre militares, voluntários e bloguers pró-Kremlin, que relatam unidades praticamente isoladas e incapazes de trocar informações em tempo real. Um dos relatos mais citados surgiu do propagandista russo Ivan Utenkov, que descreveu a situação de forma crua: “A frente está em choque… os Starlinks estão mortos, o Telegram está bloqueado — como é que devemos combater? Com pombos?”

Utilizadores russos denunciaram falhas generalizadas no Telegram durante pelo menos dois dias consecutivos, com o portal Downdetector a registar mais de 11 mil queixas num período de 24 horas. A agência estatal Roskomnadzor, responsável pela censura e regulação das comunicações, terá iniciado um abrandamento deliberado do funcionamento da aplicação em todo o país.

Criado pelo empresário russo Pavel Durov, o Telegram é amplamente utilizado na Rússia e na Europa de Leste, incluindo para fins militares informais, segundo vários intervenientes no terreno.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, tentou minimizar o impacto, afirmando aos jornalistas que é improvável que o Telegram seja um instrumento central para as comunicações militares. “Não creio que seja concebível que a comunicação na linha da frente seja feita via Telegram ou qualquer outro mensageiro. É difícil de imaginar e impossível… os especialistas é que devem falar sobre isso”, declarou.

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Militares contradizem o Kremlin
A versão oficial foi rapidamente contestada por combatentes e voluntários envolvidos no esforço de guerra. Um voluntário identificado como “Thirteenth” reagiu diretamente às declarações de Peskov, argumentando que a aplicação é, na prática, essencial.

“Caro Dmitry Sergeyevich [Peskov], como militar e participante na operação militar especial, vou dizer a verdade. Muitas vezes, não só a comunicação e o comando de batalha, mas também a logística, a recolha e a entrega de ajuda humanitária são feitas através do Telegram”, escreveu.

O mesmo voluntário sublinhou ainda que o uso da plataforma vai além das mensagens básicas: “E isso sem contar com uma variedade de outras tarefas; por vezes, até os ajustes de fogo de artilharia são feitos através do Telegram. Essencialmente, bloquear o Telegram é como dar um tiro no próprio pé.”

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Desde agosto de 2025, as autoridades russas já tinham imposto bloqueios parciais a chamadas no Telegram e no WhatsApp, alegando razões de segurança nacional. Legisladores justificaram as restrições dizendo que os canais não estavam a remover “todo o tipo de disparates” e que poderiam ser usados para recrutamento de sabotadores ou atividades terroristas.

O agravamento das falhas tecnológicas desencadeou uma onda de críticas nas redes pró-governo. O mesmo voluntário voltou a atacar a Roskomnadzor: “A Roskomnadzor é cúmplice do inimigo… Proíbam o Telegram, e depois acho que teremos de usar pombos-correio para fins militares. A ajuda humanitária vai desaparecer, e isso são vidas de soldados.”

Outro utilizador, identificado como Mikhail, acusou diretamente as autoridades de prejudicar o esforço de guerra, escrevendo que o regulador “está deliberadamente a sabotar a operação militar especial”.

Starlink agrava o isolamento no terreno
A situação complicou-se ainda mais com falhas nos terminais Starlink utilizados por forças russas em várias zonas ocupadas do leste e sul da Ucrânia.

De acordo com relatos de partisans pró-ucranianos, diversas unidades russas ficaram incapazes de comunicar, deixando comandantes sem capacidade de coordenar movimentos ou pedidos de apoio. Em alguns casos, os canais alternativos também falharam e os próprios sistemas de guerra eletrónica russos terão interferido nas comunicações internas.

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Um episódio em Zaporizhzhia terá resultado na morte de 12 militares russos em consequência de fogo amigo, alegadamente provocado por falhas de coordenação.

As interrupções surgem depois de a SpaceX ter decidido desativar terminais Starlink utilizados por forças russas, cortando o acesso à internet ao longo de cerca de 1.000 quilómetros da linha da frente.

O especialista ucraniano em guerra eletrónica Serhiy “Flash” Beskrestnov afirmou que quase todas as unidades russas dependentes do sistema perderam a capacidade de transmitir dados seguros, deixando os comandantes sem meios para sincronizar ataques.

O movimento partidário ucraniano Atesh resumiu o impacto das falhas com um aviso direto: “Sem comunicações estáveis na linha da frente, começa o caos. A dependência da Rússia de tecnologia civil virou-se contra si. Quando as comunicações desaparecem, o comando colapsa e as tropas começam a destruir-se entre si.”

Também o jornalista e veterano da frente Yuri Butusov ironizou a situação, afirmando que, depois do Telegram e do Starlink, “a Rússia vai cortar a internet. Assim, dirão menos disparates”.

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