A indústria automóvel está a entrar numa nova era — e, desta vez, os protagonistas podem não ser humanos. Fabricantes como Hyundai, BMW, Mercedes-Benz, Toyota ou Tesla já estão a testar ou integrar robôs humanoides nas suas fábricas, numa transformação que promete redefinir a produção automóvel, avança o ‘El Mundo’.
Chamam-se Atlas, Optimus, Digit, Aeon ou CyberOne. Não pedem férias, não fazem pausas e não faltam ao trabalho — numa altura em que o absentismo no setor já ronda os 10% desde a pandemia. Mas, mais do que substituir pessoas, estas máquinas estão a aprender a trabalhar lado a lado com humanos.
De braços robóticos a “quase humanos”
Ao contrário dos tradicionais braços industriais, estes novos robôs têm forma e movimentos semelhantes aos humanos. São treinados com recurso à chamada Inteligência Artificial Física — sistemas que aprendem em ambiente real e adaptam-se a tarefas complexas.
O exemplo mais avançado poderá ser o Atlas, desenvolvido pela Hyundai com a Boston Dynamics. Com 1,90 metros de altura, 56 articulações e capacidade para levantar até 50 quilos, foi concebido para executar tarefas repetitivas e exigentes, como transporte de peças ou montagem.
A marca sul-coreana tem planos ambiciosos: produzir até 30 mil unidades por ano a partir de 2028 e começar a integrá-las nas linhas de produção, com o objetivo de alcançar montagem complexa até 2030.
Já estão nas fábricas — e a trabalhar
A transição já começou. A BMW testou o robô Figure 02 na fábrica de Spartanburg, nos EUA, onde ajudou a produzir mais de 30 mil unidades do X3. Em apenas alguns meses, movimentou mais de 90 mil componentes, trabalhando turnos de 10 horas.
Agora, a marca prepara a introdução do Aeon na Europa, nomeadamente na fábrica de Leipzig, onde será utilizado na montagem de baterias e componentes.
Também a Mercedes-Benz está a avançar com o Apollo, treinado em Berlim para funções de logística, montagem e controlo de qualidade. A Toyota, por sua vez, aposta no Digit, com funções semelhantes no Canadá.
“Estagiários” robóticos e tarefas simples
Na China, a Xiaomi já colocou o seu robô CyberOne em ambiente industrial. Ainda numa fase experimental, é tratado como um “estagiário”, realizando tarefas simples como transporte de peças ou montagem básica.
Mas mesmo essas tarefas exigem precisão elevada: colocar uma simples porca implica movimentos coordenados, rotação correta e sincronização com uma linha de montagem que produz um carro a cada 76 segundos.
A expectativa é clara: dentro de cinco anos, estes robôs poderão ser tão comuns como qualquer trabalhador.
Impacto pode ser gigante
Os benefícios económicos são significativos. Segundo a Accenture, a integração de robótica e inteligência artificial pode reduzir custos e tempo de produção em até 50%. A McKinsey estima um impacto global de 150 mil milhões de dólares (cerca de 138 mil milhões de euros) por ano, libertados para inovação.
Mas a questão inevitável mantém-se: o que acontece ao emprego?
Especialistas admitem que muitas funções poderão desaparecer, mas também sublinham que haverá necessidade de requalificação para novas tarefas, mais técnicas e especializadas.
Fábricas “escuras” até 2030?
O cenário mais disruptivo já está a ser discutido: fábricas totalmente automatizadas, sem presença humana — as chamadas “fábricas escuras”, que nem sequer precisam de iluminação.
Segundo analistas citados pelo ‘El Mundo’, os primeiros exemplos no setor automóvel poderão surgir até 2030, provavelmente nos Estados Unidos ou na China.
Para isso, será necessário redesenhar processos e até os próprios carros, de forma a torná-los totalmente compatíveis com montagem robotizada.
Até lá, o caminho parece traçado: humanos e máquinas vão coexistir nas fábricas. Mas, pela primeira vez, começa a ser plausível imaginar um futuro onde os carros são feitos… sem pessoas.











