A União Europeia está a analisar uma proposta para proibir a entrada no espaço comunitário de soldados russos que tenham combatido na guerra na Ucrânia, perante receios de que veteranos endurecidos pelo conflito possam representar uma ameaça de segurança a longo prazo para a Europa, avançou esta sexta-feira a publicação ‘Kyiv Post’.
A iniciativa foi apresentada pela Estónia durante uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, realizada esta quinta-feira, e encontra-se ainda numa fase inicial de desenvolvimento. O país báltico, que faz fronteira com a Rússia e integra tanto a União Europeia como a NATO, tem sido um dos defensores mais firmes do reforço das restrições a Moscovo desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022.
Estónia pede resposta coordenada dos 27
No início deste mês, Tallinn impôs uma proibição permanente de entrada a 261 soldados russos que, segundo o Governo estónio, participaram diretamente na invasão da Ucrânia. Agora, as autoridades defendem que a medida seja alargada a todo o bloco comunitário.
“A Rússia tem quase um milhão de combatentes. São sobretudo criminosos. São pessoas muito perigosas”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Margus Tsahkna, antes das negociações, em declarações citadas pelo ‘Kyiv Post’. Segundo o governante, existem informações que indicam que alguns destes combatentes poderão tentar deslocar-se para países europeus após o fim da guerra.
“A Europa não está preparada para isso”, alertou Tsahkna, defendendo a criação de um sistema europeu “bem coordenado” para incluir veteranos russos em listas negras num cenário pós-guerra.
“Não pode haver um caminho de Bucha para Bruxelas”
O chefe da diplomacia estónia sublinhou que medidas isoladas a nível nacional seriam insuficientes para responder ao desafio. “Precisamos proteger a segurança europeia e precisamos de o fazer juntos. Não pode haver um caminho de Bucha para Bruxelas”, afirmou.
A cidade ucraniana de Bucha tornou-se símbolo de crimes de guerra atribuídos às forças russas após a sua libertação, em março de 2022. As autoridades ucranianas descobriram centenas de corpos de civis, muitos com sinais de tortura e execuções sumárias, num dos episódios mais marcantes da guerra.
Apoios crescentes dentro da União Europeia
Após a reunião, a alta-representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, confirmou que vários Estados-membros manifestaram apoio à proposta apresentada pela Estónia.
Kallas, antiga primeira-ministra estónia, afirmou que a questão dos veteranos russos deverá ganhar relevância caso seja alcançado um cessar-fogo na Ucrânia, sublinhando a necessidade de a UE se antecipar a esse cenário. “Isto representa um claro risco de segurança para a Europa”, declarou, acrescentando que os ministros concordaram em continuar a explorar a ideia e a avaliar o apoio político dentro do bloco.
Restrições já em vigor a cidadãos russos
A União Europeia já endureceu significativamente as regras de entrada para cidadãos russos, abolindo os vistos Schengen de múltiplas entradas e exigindo pedidos individuais para cada viagem. Estas medidas foram adotadas em novembro passado, em resposta à agressão contínua da Rússia e às crescentes preocupações com atos de sabotagem ligados a Moscovo.
Vários Estados europeus, incluindo a Polónia, acusaram a Rússia de estar por detrás de uma vaga de sabotagens, ciberataques e incêndios criminosos em diferentes países da UE, com o objetivo de desestabilizar o bloco e a NATO. Nos últimos meses, supostos espiões russos foram julgados em diversos Estados-membros.
“A energia é a nova linha da frente”
Comentando a evolução da guerra, que se aproxima do quarto ano, Kaja Kallas afirmou que Moscovo não está a demonstrar um compromisso real com a paz, apesar das tentativas do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para mediar o fim do conflito.
Embora Kiev e Moscovo tenham relatado algum progresso após negociações diretas recentes, persistem divergências significativas. Entretanto, a Rússia intensificou os ataques à infraestrutura energética ucraniana, deixando populações sem aquecimento, eletricidade ou água durante o inverno rigoroso.
“A Rússia não está a conseguir vencer no campo de batalha e tenta usar o inverno como arma. Agora, a energia é a nova linha da frente”, concluiu Kallas.




