Casamentos católicos caem para mínimos: só 1 em cada 5 inclui cerimónia religiosa

Dos cerca de 51 mil casamentos celebrados no último ano com dados disponíveis, 11 828 foram católicos, enquanto 39 282 aconteceram exclusivamente pelo civil.

Revista de Imprensa
Janeiro 24, 2026
9:56

O casamento religioso continua a perder expressão em Portugal. Em 2024, apenas um em cada cinco matrimónios realizados no país incluiu cerimónia católica, confirmando uma tendência de afastamento da Igreja e de dessacralização do casamento enquanto instituição tradicional.

Dos cerca de 51 mil casamentos celebrados no último ano com dados disponíveis, 11 828 foram católicos, enquanto 39 282 aconteceram exclusivamente pelo civil, segundo dados da Direção-Geral da Política de Justiça, citados pelo Jornal de Notícias. A evolução dos números mostra uma quebra consistente do matrimónio religioso nas últimas décadas.

Casamento civil ganha terreno em Portugal

Se recuarmos a 2019, ainda se realizaram 16 487 casamentos católicos. Já em 2021, após o período mais restritivo da pandemia, o número caiu para 12 515. Houve uma ligeira recuperação no ano seguinte, mas a tendência de descida voltou a confirmar-se a partir de 2023.

Em sentido inverso, os casamentos realizados apenas no registo civil mantêm valores mais elevados e estáveis. Em 2019 foram 35 430 e, em 2024, ultrapassaram os 39 mil, em linha com os cerca de 40 mil registados nos dois anos anteriores.

Já os divórcios têm apresentado números relativamente estáveis. Em 2019 registaram-se 14 657 separações por mútuo consentimento. Entre 2020 e 2024, os valores rondaram sempre os 12 mil casos anuais. Estes dados não incluem divórcios litigiosos.

Sociedade mais laica e casamento menos “sagrado”

A socióloga Cláudia Casimiro, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, explica ao JN que o declínio do casamento católico acompanha um processo mais amplo de secularização da sociedade portuguesa.

Segundo a investigadora, tem-se acentuado a laicização e a Igreja Católica perdeu influência social. Como consequência, o casamento “perdeu o seu caráter sagrado”, assistindo-se a uma progressiva dessacralização do matrimónio.

Ainda assim, isso não significa que a vida em comum tenha perdido importância. Pelo contrário, a conjugalidade e a família continuam a ocupar um lugar central na vida das pessoas. O que mudou foram as formas de viver essas relações.

União de facto é cada vez mais comum

Cada vez mais casais optam por viver juntos antes — ou mesmo sem — casar. A coabitação generalizou-se e deixou de ser vista como algo socialmente reprovável. Mais de metade das pessoas que casam em Portugal já viviam em união de facto antes da formalização da relação.

Os dados dos Censos ilustram bem esta transformação. Em 1991, havia cerca de 194 mil pessoas a viver em união de facto. Três décadas depois, em 2021, esse número ultrapassava já um milhão (1 008 604).

Para Cláudia Casimiro, pode falar-se numa diminuição progressiva da importância do casamento como instituição que funda obrigatoriamente a família. Hoje existem várias formas de entrada e de permanência na conjugalidade, num contexto de mudança de valores, normas e papéis sociais tradicionais.

Festa de casamento continua a pesar na carteira

Apesar da perda de peso religioso, a vertente festiva do casamento mantém-se relevante, seja em cerimónias civis ou religiosas. Jorge Barros Ferreira, CEO da Best Events, empresa organizadora de feiras para noivos como a Braga Noivos e a White Wedding, refere ao JN que os serviços ligados às celebrações têm registado crescimento.

Segundo o responsável, não existem grandes diferenças de custo entre casamentos católicos e civis, já que ambos incluem, na maioria dos casos, festa. A principal despesa continua a ser a refeição, cujo valor médio ronda atualmente os 90 euros por convidado.

Os preços têm aumentado nos últimos anos, acompanhando a realidade económica do país e o acréscimo generalizado dos custos no setor.

Novas tendências na indústria dos casamentos

A indústria dos casamentos tem diversificado a oferta, apostando cada vez mais em experiências emocionais e personalizadas. Serviços de animação e decoração ganharam protagonismo, com propostas como photobooths, videobooths, audio guestbooks, cenários pensados para redes sociais, espetáculos cénicos no corte do bolo e até shows com drones.

Outra figura que tem vindo a ganhar destaque é a dos celebrantes de casamentos. Estes profissionais conduzem cerimónias simbólicas, altamente personalizadas e emotivas, respondendo à procura de rituais menos religiosos, mas igualmente significativos para os noivos.

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