O Ca’ Dario, um dos palácios mais icónicos do Grande Canal de Veneza, está novamente à venda, mas a sua reputação sombria continua a dificultar o negócio. Conhecido como o “palácio amaldiçoado”, o edifício, que tem nove quartos e um longo historial de tragédias associadas a antigos proprietários e visitantes, permanece vazio há anos, conta o ‘The Guardian’.
Apesar da localização privilegiada, a poucos passos da Coleção Peggy Guggenheim, e de uma recente renovação, o imóvel tem sido difícil de vender. O preço pedido rondará os 20 milhões de euros, mas não é apenas o valor que pesa na decisão dos compradores.
Um tesouro do Renascimento veneziano
Construído no final do século XV, o palácio deve o nome a Giovanni Dario, diplomata veneziano celebrado por ter negociado um tratado de paz com o Império Otomano. Ao longo dos séculos, o Ca’ Dario foi residência de nobres, comerciantes e até figuras ligadas ao mundo da música britânica.
A sua importância cultural também ficou registada na arte e na literatura. Em 1908, Claude Monet pintou o palácio durante a sua passagem por Veneza. No ano seguinte, o edifício foi mencionado por Henry James na obra Italian Hours.
Com nove quartos, oito casas de banho e amplas salas de receção decoradas com frescos, o palácio destaca-se ainda por elementos como arcos góticos, lustres antigos de Murano e uma loggia com terraço. A venda está agora a cargo da Christie’s International Real Estate e da Engel & Völkers, que descrevem o imóvel como uma “joia arquitetónica” situada numa zona tranquila da cidade, longe do fluxo turístico mais intenso.
A fama negra que atravessa gerações
O que não surge nas descrições comerciais são as histórias que alimentaram a reputação sinistra do Ca’ Dario. As lendas locais associam o palácio a pelo menos sete mortes, algumas delas violentas.
O episódio mais conhecido ocorreu em 1970, quando o proprietário da altura, o conde Filippo Giordano delle Lanze, foi assassinado dentro do palácio pelo seu companheiro, um marinheiro que fugiu para Londres e que viria também a ser morto.
No ano seguinte, o imóvel foi adquirido por Christopher “Kit” Lambert, manager da banda The Who. Apesar de afirmar não acreditar em maldições, dizia a amigos que preferia dormir noutro local para evitar os supostos fantasmas. Mais tarde, a população associou a sua dependência de drogas, dificuldades financeiras e morte em 1981 — após cair de umas escadas em Londres — à fama do palácio.
Na década de 1980, o edifício passou para as mãos do financeiro italiano Raul Gardini, envolvido num escândalo de corrupção mediático, que se suicidou em Milão em 1993.
Infortúnio até para quem só se aproxima
As histórias de azar não se limitam aos proprietários. Segundo a lenda, até quem esteve perto de adquirir ou frequentar o palácio terá sido afetado.
O tenor Mario Del Monaco planeava comprar o imóvel em 1964, mas desistiu após sofrer um grave acidente de viação a caminho de o visitar. Já John Entwistle, baixista dos The Who, morreu nos Estados Unidos em 2002, apenas uma semana depois de ter arrendado o Ca’ Dario.
Após estes episódios, o edifício entrou num período de abandono. Apesar de ter despertado interesse de alguns potenciais compradores, alegadamente incluindo Woody Allen, a reputação de lugar “amaldiçoado” terá afastado decisões finais.
Em 2006, o palácio foi adquirido por uma empresa norte-americana em nome do atual proprietário, cuja identidade não foi divulgada. Desde então, permanece desocupado, o que só contribuiu para reforçar o imaginário em torno do imóvel.
Entre a lenda e a realidade veneziana
Arnaldo Fusello, responsável da Christie’s em Veneza, relativiza as histórias e lembra que os venezianos apreciam contar narrativas cativantes, sobretudo a visitantes. Salienta ainda que centenas de pessoas viveram no palácio ao longo dos séculos sem qualquer tragédia, incluindo o próprio Giovanni Dario, que morreu de causas naturais aos 80 anos.
O historiador veneziano Davide Busato partilha dessa visão, explicando que os rumores ganharam força a partir da década de 1970, intensificando-se após o suicídio de Gardini. Segundo refere, os venezianos gostam de exagerar histórias locais, tal como acontece com a fama da ilha abandonada de Poveglia.
Busato recorda que Veneza está repleta de edifícios históricos onde ocorreram crimes ou suicídios e que hoje funcionam como hotéis de luxo. Como em muitas lendas, alguns factos reais acabam ampliados com o tempo.
Interesse renovado na venda
Apesar da aura de mistério, a Christie’s acredita que o Ca’ Dario acabará por encontrar comprador. Segundo Fusello, o imóvel já despertou “muito” interesse, tanto de italianos como de estrangeiros.
“Este é um lugar onde a história vive”, afirmou. “E, para quem quer viver a história, esta é a casa perfeita — desde que haja o compromisso de manter esta propriedade viva.”
Entre valor arquitetónico, localização de prestígio no Grande Canal e um passado envolto em lendas, o Ca’ Dario continua a ser um dos imóveis mais enigmáticos do mercado imobiliário de luxo em Veneza.














