Olho por olho? Europa estuda travão à expansão chinesa no setor automóvel europeu

Durante décadas, a indústria automóvel chinesa cresceu apoiada na transferência de tecnologia ocidental, num modelo que obrigou fabricantes estrangeiros a associarem-se a marcas locais para poderem operar no país

Automonitor

Durante décadas, a indústria automóvel chinesa cresceu apoiada na transferência de tecnologia ocidental, num modelo que obrigou fabricantes estrangeiros a associarem-se a marcas locais para poderem operar no país. Agora, a União Europeia estuda uma resposta semelhante, ponderando impor joint ventures obrigatórias às marcas chinesas que queiram investir em grande escala no espaço europeu, segundo o ‘L’Automobile Magazine’.

A estratégia chinesa assentou, desde o final da década de 1970, numa legislação que limitava importações e forçava a partilha de conhecimento técnico. Apesar das tarifas alfandegárias elevadas, a China continuava dependente de veículos importados, levando Pequim a criar a Lei das Joint Ventures, que impunha parcerias com fabricantes chineses e transferência tecnológica como condição de acesso ao mercado.

O resultado foi uma transformação profunda do setor. Em 1985, a China produzia pouco mais de 5.000 automóveis por ano num país com cerca de mil milhões de habitantes. Hoje, é o maior mercado automóvel do mundo, com mais de 20 milhões de vendas anuais, apoiado numa abundância excecional de matérias-primas e numa exploração intensiva de recursos naturais ao longo de 40 anos.

Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, muitos responsáveis europeus consideram que este modelo dificilmente poderá ser replicado integralmente noutros continentes, mas defendem que a Europa não deve permitir que os fabricantes chineses se instalem sem contrapartidas. A perceção dominante é a de que a indústria europeia foi, durante anos, explorada através de parcerias assimétricas.

“Durante anos, a China exigiu que todas as futuras melhorias tecnológicas também pertencessem à empresa chinesa que integrava a joint venture”, afirmou David Boitout, advogado do escritório Gide Loyrette Nouel na China, citado na análise. Essa exigência terá contribuído para a diluição de conhecimento estratégico europeu e para a rápida ascensão tecnológica dos construtores chineses, hoje capazes de competir em todos os segmentos, do citadino ao elétrico de alto desempenho.

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Bruxelas trabalha agora numa secção específica do chamado pacote automóvel europeu, que inclui o princípio da “preferência europeia”. A proposta, ainda não oficialmente apresentada, prevê que fabricantes chineses com projetos superiores a 100 milhões de euros sejam obrigados a estabelecer parcerias com marcas europeias, com uma repartição de capital de 51% para o parceiro europeu e 49% para o chinês, incluindo transferência de tecnologia.

O anúncio deste plano, inicialmente previsto para janeiro, foi adiado para o final de fevereiro devido a divergências entre os Estados-membros. A França tem sido uma das vozes mais exigentes, defendendo uma preferência europeia clara para os veículos elétricos, com pelo menos 75% de componentes produzidos na Europa.

Há poucos dias, o Ministério dos Transportes francês manifestou confiança de que esta exigência será integrada no texto final da Comissão Europeia. O vice-presidente europeu responsável pela Indústria tem, por sua vez, chamado a atenção para a elevada proporção de trabalhadores chineses em algumas fábricas recentemente instaladas na União Europeia, reforçando a necessidade de regras mais restritivas.

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A discussão promete marcar o futuro da relação industrial entre a Europa e a China, num setor estratégico onde a transferência de tecnologia volta a estar no centro do debate.

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