A atuação do padre católico português Guilherme Peixoto como DJ numa discoteca lotada de Beirute desencadeou uma vaga de críticas e levou à apresentação de uma queixa formal por parte de um grupo de cristãos no Líbano, incluindo membros do clero, que tentaram travar o espetáculo por alegada violação dos costumes e da moral cristã.
Numa discoteca com cerca de duas mil pessoas, ao som de música eletrónica e com imagens de Papas projetadas nos ecrãs, o sacerdote tocou música enquanto surgiam referências visuais à iconografia católica. Segundo a ‘Reuters’, foi a primeira vez que o padre, conhecido nas redes sociais como Padre Guilherme e seguido por mais de 2,6 milhões de pessoas no Instagram, enfrentou uma oposição tão veemente por parte de fiéis cristãos.
“Se alguém não se sente confortável com o que estou a fazer, que reze por mim. Porque não posso fazer mais nada a esse respeito. Vivemos num mundo livre e ele precisa de ser livre”, afirmou o padre à ‘Reuters’, reagindo às críticas.
Queixa formal e acusações de violação da moral cristã
No centro da polémica esteve uma queixa apresentada por um pequeno, mas influente grupo de cristãos libaneses, que pediu o cancelamento do evento, acusando Guilherme Peixoto de distorcer imagens e símbolos do cristianismo e de ultrapassar limites morais da Igreja.
As críticas surgem num país onde, apesar de Beirute ser conhecida por uma cena cultural liberal, líderes religiosos e políticos têm conseguido, em vários casos, bloquear filmes, peças de teatro e espetáculos considerados ofensivos. Ainda assim, a queixa acabou por ser rejeitada por um juiz, permitindo que o espetáculo avançasse.
Durante a atuação, o padre subiu ao palco com uma camisola estampada com pães e peixes, numa referência a um milagre bíblico, gesto que voltou a dividir opiniões entre os presentes.
“Nem todos têm de gostar do que eu faço, mas têm de respeitar”, afirmou o sacerdote, sublinhando que espera poder explicar a sua música aos críticos se regressar ao Líbano.
Apoio do Vaticano contrasta com críticas locais
A contestação no Líbano contrasta com o apoio que Guilherme Peixoto tem recebido de figuras de topo da Igreja Católica. A sua incursão na música eletrónica começou em Portugal, há mais de uma década, como forma de angariar fundos para pagar dívidas da paróquia. Desde então, tem atuado em vários países.
O Papa Francisco chegou a abençoar os seus auscultadores e, numa atuação recente na Eslováquia, foi transmitida uma mensagem especial do Papa Leão XIII. Para alguns espectadores, este apoio torna difícil compreender a indignação de setores do clero libanês.
“Não entendo porque é que alguns padres no Líbano estão tão descontentes com esta ideia, quando dois Papas não tiveram qualquer problema com ela”, disse Charbel Hatem, estudante de 19 anos, que assistiu a uma missa celebrada por Peixoto horas antes do espetáculo, segundo a ‘Reuters’.
“Levar a Igreja para fora da Igreja”
Apesar da controvérsia, o padre defende que o seu trabalho procura aproximar a Igreja de públicos afastados da prática religiosa. “É música para levar a Igreja para fora da Igreja”, afirmou.
Num país marcado por tensões religiosas e por um contexto regional instável, Guilherme Peixoto diz querer transmitir uma mensagem de convivência e paz. “Precisamos de viver em família, com religiões diferentes ou até sem religião. Mas esta é a nossa casa. E se vive no Líbano, o Líbano é a sua casa — para todos”, declarou.
À saída da discoteca, alguns espectadores sublinhavam o simbolismo do espetáculo. “A religião é uma mensagem de amor e de abertura”, disse Cecile Freiha, de 36 anos, referindo-se à imagem de uma pomba projetada durante toda a atuação.















