Cronologia de uma noite que mudou a Venezuela: quem eram os ‘vespas negras’ cubanos armados com AK-47 mortos enquanto protegiam Maduro?

A madrugada de 3 de janeiro de 2026 marcou um ponto de viragem na história recente da América Latina

Francisco Laranjeira

A madrugada de 3 de janeiro de 2026 marcou um ponto de viragem na história recente da América Latina. Numa operação conduzida pelas forças armadas dos Estados Unidos, Caracas foi palco de uma intervenção militar direta que culminou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pondo fim a um regime que resistira durante anos a sanções, isolamento internacional e sucessivas crises internas.

Segundo o ‘El Español’, a operação foi descrita pelo presidente americano, Donald Trump, como uma ação policial destinada a executar acusações federais antigas contra Maduro e a sua mulher, Cilia Flores, relacionadas com tráfico de droga e crime organizado. Mas, para lá da queda do líder chavista, a noite expôs uma realidade mantida durante anos na sombra: a presença estrutural de forças cubanas, os ‘vespas negras’, no núcleo da segurança presidencial venezuelana.

Uma operação em vários planos

A ofensiva desenrolou-se em simultâneo a partir de diferentes níveis de comando. De Washington D.C. partiu a coordenação estratégica; em Caracas, o epicentro foi o complexo militar de Fuerte Tiuna, no sul da capital, considerado o coração do poder político e militar do regime chavista.

Naquela noite, explosões atingiram pontos estratégicos como La Carlota e o próprio Fuerte Tiuna. Aeronaves voaram a baixa altitude, os sistemas de comunicações começaram a falhar e a zona sul da cidade ficou parcialmente às escuras. A intervenção americana combinou ataques aéreos com a entrada rápida de forças especiais em terra, treinadas para operações de captura de alto risco.

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Fuerte Tiuna: a fortaleza do regime

Fuerte Tiuna não é apenas uma base militar. Trata-se de um complexo urbano fechado, com quartéis, residências oficiais, centros de inteligência, corredores internos e percursos altamente vigiados. É ali que convergem as forças de segurança do Estado, a elite militar chavista e os dispositivos responsáveis pela proteção direta do presidente.

Foi neste espaço que se encontravam, na noite do ataque, 32 cidadãos cubanos integrados nas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e no Ministério do Interior. A presença destes elementos foi confirmada posteriormente por Havana, que reconheceu oficialmente as mortes ocorridas durante a operação.

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Quem eram os 32 cubanos

A primeira confirmação oficial sobre o número e a nacionalidade das vítimas partiu do Governo cubano. Um comunicado do Ministério do Interior de Cuba indicou que os 32 cidadãos morreram “em combate direto contra os atacantes ou como resultado do bombardeamento das instalações”, descrevendo a sua atuação como o “cumprimento fiel do dever, com dignidade e heroísmo”.

Ao contrário de outros episódios semelhantes, Havana divulgou a identidade completa dos mortos, incluindo nomes, patentes e idades, que variavam entre os 26 e os 67 anos. Entre eles havia coronéis, tenentes-coronéis, majores, capitães, primeiros-tenentes e soldados.

O que não foi tornado público foi o papel específico de cada um durante a operação nem a sua localização exata no momento em que começaram os bombardeamentos e as trocas de tiros. Todos faziam, contudo, parte do chamado “primeiro círculo” de proteção de Nicolás Maduro e de Cilia Flores.

Uma presença antiga, agora exposta

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A presença de cubanos na segurança do poder venezuelano não era nova. Desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, Havana forneceu instrutores, conselheiros e oficiais para o treino das forças armadas e dos serviços de informação. Sob Maduro, essa cooperação aprofundou-se, integrando elementos cubanos no círculo mais restrito da proteção presidencial.

Os 32 mortos não formavam uma unidade homogénea. Onze pertenciam às Forças Armadas Revolucionárias e 21 ao Ministério do Interior, refletindo um modelo de segurança baseado em camadas sobrepostas e funções complementares. Todos estavam destacados em missões rotativas no estrangeiro, com estadias prolongadas na Venezuela, enquanto as suas famílias permaneciam em Cuba.

O dispositivo de segurança e o armamento

Os cubanos destacados em Fuerte Tiuna não estavam preparados para travar uma guerra aberta contra uma potência militar. O seu armamento obedecia à lógica clássica de uma guarda presidencial: conter, atrasar e ganhar tempo.

As espingardas Kalashnikov, nas variantes AK e AKM, constituíam a arma principal. Tratava-se de armamento robusto e fiável para combate a curta distância, adequado a corredores, postos de controlo e espaços fechados, mas ineficaz contra aeronaves. Em pontos fixos do complexo existiam metralhadoras PKM, destinadas a bloquear acessos e retardar avanços terrestres.

Havia ainda atiradores designados, posicionados em locais elevados, com espingardas de precisão de fabrico soviético ou cubano, usadas sobretudo para observação armada e controlo de movimento. O pessoal do Ministério do Interior operava como força de intervenção rápida, assegurando espaços confinados e a movimentação interna da comitiva presidencial.

A cronologia da madrugada de 3 de janeiro

As primeiras explosões foram registadas cerca das 2h da manhã. Testemunhos locais relataram voos rasantes de aeronaves, cortes de energia e fortes detonações na zona sul de Caracas.

No momento do ataque, alguns dos cubanos estavam de serviço em torres de vigilância e postos de acesso. Outros encontravam-se a descansar dentro do complexo, uma vez que Fuerte Tiuna funciona também como espaço residencial para elementos da segurança presidencial. O tempo entre o alarme e a ação foi de segundos.

Quando a ofensiva americana se intensificou, a defesa tornou-se rapidamente insuficiente. As armas disponíveis não permitiam responder aos bombardeamentos nem conter o avanço das forças especiais. Alguns dos cubanos morreram em confrontos diretos dentro do complexo; outros foram atingidos pelos ataques aéreos. Cuba resumiu mais tarde as circunstâncias das mortes a duas palavras: combate e bombardeamento.

Luto oficial e silêncio político

Após a operação, Havana decretou dois dias de luto nacional. O Governo venezuelano anunciou uma semana de luto. Para lá das declarações oficiais, manteve-se um silêncio significativo sobre as decisões políticas que levaram à presença daqueles 32 homens no núcleo da defesa presidencial.

A sua morte tornou visível uma aliança estratégica entre Cuba e Venezuela construída ao longo de décadas, assente na segurança, na inteligência e na energia. A dependência cubana do petróleo venezuelano, que durante anos garantiu uma parte essencial do abastecimento energético da ilha, surge agora como um fator adicional de vulnerabilidade num novo contexto político.

Os 32 cubanos não regressaram para contar a sua história. Estavam em Caracas porque uma aliança forjada ao longo de décadas assim o exigia — e morreram no momento em que essa aliança se transformou num campo de batalha.

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