O setor dos transportes representa cerca de um quarto das emissões totais dos gases com efeito de estufa (GEE) da União Europeia (UE), sendo o setor rodoviário o principal responsável (mais de 70%).
A UE definiu metas ambiciosas através do European Green Deal visando reduzir as emissões de GEE em pelo menos 55% até 2030. A Diretiva das Energias Renováveis (RED III) determina que uma percentagem da energia consumida no setor dos transportes dever ser proveniente de fontes renováveis (bicombustíveis avançados, hidrogénio verde, eletricidade renovável). Em termos da RED III, é definido para 2030 uma quota >5% de biocombustíveis avançados + combustíveis renováveis de origem não biológica.
Existem ainda as iniciativas ReFuelEU Aviation e FuelEU Maritime destinadas a promover o uso de combustíveis sustentáveis no transporte aéreo e marítimo. Para o hidrogénio rodoviário, até 2030, deverão existir 1000 estações de abastecimento públicas, o mínimo uma a cada 200km ao longo da rede TEN-T (Trans-European Transport Network).
Em Portugal o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 prevê para o setor dos transportes um potencial de redução dos GEE de 98%. Já o Plano Nacional Energia e Clima 2030 prevê uma redução de 40% nos GEE neste setor com uma quota de energia renovável no consumo de final de energia atualizada para 29%, considerando a incorporação de biocombustíveis e biometano.
Os veículos de transporte rodoviário de emissões zero não produzem emissões diretas de poluentes atmosféricos (GEE, NOx, partículas), mas neste conceito estão excluídas as emissões indiretas relacionadas com a produção de energia elétrica para estes veículos e as devidas ao ciclo de vida dos mesmos.
No caso da utilização de combustíveis líquidos e gasosos alternativos, não será necessário efetuar grandes investimentos na distribuição e a sua utilização pode ter um impacto imediato na frota atual de veículos, devido à compatibilidade com os motores de combustão existentes.
Os combustíveis de aviação sustentáveis (SAF) podem ser combustíveis de aviação sintéticos a partir de hidrogénio renovável e dióxido de carbono capturado e biocombustíveis avançados derivados de resíduos (alimentares, agroindustriais), pretendendo-se em 2050 atingir a incorporação de 70% de SAF a nível da UE.
Em termos de transporte marítimo, pretende-se atingir uma meta de redução de 80% em 2050, estimulando a adoção de combustíveis de menor pegada de carbono como os biocombustíveis avançados, e-metanol, hidrogénio e amoníaco verde.
Segundo dados da European Biomass Association, o número de instalações de produção de biometano na Europa aumentou, apenas entre 2024 e 2025 de 1548 para 1678 (mais de 8%). Por cá temos em implementação o Plano de Ação para o Biometano. Pelo que se espera que este combustível renovável “comece a aparecer”.
E já agora falo aqui também da experiência Tour d’Europe realizada pela cadeia de valor automóvel europeia, citada pela EPCOL. Vários veículos de várias categorias com diferentes motores de combustão, percorreram dezenas de milhares de kms sendo abastecidos com uma grande variedade de combustíveis renováveis, ou combustíveis com incorporação destes, já existentes. Em termos de análise “do poço à roda” foram observadas reduções de emissão de CO2 específicas de 66 a 83% (relativamente ao combustível tradicional de origem fóssil), havendo potencial para melhoria.
Já assistimos a algumas transições energéticas na história da Humanidade, e nenhuma destas “obrigou” ao desaparecimento das fontes energéticas anteriores pelo menos a breve trecho. O que se passou foi a coexistência e o aumento da percentagem de utilização daquelas fontes que melhor se adaptavam às necessidades das sociedades. Como demonstrado, há soluções para a descarbonização dos transportes para além apenas da eletrificação. E que são também socialmente mais inclusivas. Aliás, a UE decidiu flexibilizar a proibição total de carros novos a combustão a partir de 2035, permitindo a sua venda contínua, desde que usem combustíveis neutros em carbono ou sejam híbridos plug-in. Por isso se impõe a neutralidade tecnológica e a adoção de políticas mais abertas neste domínio.
Portugal pode ter possibilidade de se vir a tornar um marco neste domínio! Vamos pensar nisso?





