Blaise Metreweli, a primeira mulher a assumir a liderança do Serviço Secreto de Informações do Reino Unido (MI6) em 116 anos de história, vai alertar que “a linha da frente está em todo o lado”, num discurso público inédito desde que tomou posse, este outono. A nova diretora dos serviços de informações externas britânicos falará a partir da sede do MI6, em Londres, sublinhando um contexto de ameaças crescentes à segurança do Reino Unido e da Europa, com particular destaque para a atuação da Rússia.
De acordo com informações divulgadas pela CNN Internacional, Metreweli — conhecida internamente como “C” e único membro do MI6 publicamente identificado — abordará um cenário de risco cada vez mais complexo, marcado pela disrupção tecnológica, pela manipulação da informação e pelo terrorismo, alertando para a necessidade de adaptação constante dos serviços de informações face a ameaças híbridas e difusas.
No discurso, a diretora do MI6 destacará de forma explícita a Rússia, que descreve como “agressiva, expansionista e revisionista”. Segundo Metreweli, “a exportação do caos é uma característica, não um erro, na abordagem russa ao envolvimento internacional”, acrescentando que o Reino Unido e os seus aliados devem estar preparados para que esta estratégia continue “até que o presidente russo Vladimir Putin seja forçado a alterar os seus cálculos”.
Especialistas em segurança citados no contexto da intervenção alertam que Moscovo tem vindo a conduzir uma guerra híbrida contra os países que apoiam a Ucrânia desde a invasão em grande escala lançada pela Rússia. No Reino Unido, a polícia aponta para incêndios provocados por operacionais apoiados por Moscovo em fábricas ligadas à Ucrânia, enquanto noutros pontos da Europa foram registados incidentes como drones perto de aeroportos, violações do espaço aéreo da NATO na Polónia e na Roménia e danos em cabos submarinos no mar Báltico, alimentando receios de sabotagem — episódios pelos quais a Rússia não assumiu responsabilidade.
Metreweli irá também sublinhar a centralidade da tecnologia na atividade dos serviços secretos modernos, defendendo que o MI6 tem de dominar tanto o trabalho humano como o digital. “Temos de estar tão à vontade com linhas de código como estamos com fontes humanas, tão fluentes em Python como em várias línguas”, dirá a responsável, que anteriormente liderou as equipas de tecnologia e inovação do serviço, um cargo frequentemente comparado ao papel de “Q” nos filmes de James Bond.
Na conclusão do discurso, a chefe do MI6 enfatizará a importância da ação humana na orientação do poder tecnológico. “O desafio definidor do século XXI não é apenas quem detém as tecnologias mais poderosas, mas quem as orienta com maior sabedoria. A nossa segurança, a nossa prosperidade e a nossa humanidade dependem disso”, afirmará, apelando à “redescoberta da nossa humanidade partilhada” num mundo cada vez mais perigoso e mediado pela tecnologia.
A intervenção surge uma semana depois de a ministra britânica dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, ter alertado para a guerra de informação em curso, anunciando sanções contra organizações e indivíduos envolvidos na estratégia russa, bem como contra duas empresas sediadas na China por “vastas e indiscriminadas atividades cibernéticas” contra o Reino Unido e os seus aliados. Este ano, o MI6 lançou ainda o portal Silent Courier, na dark web, que permite a cidadãos de qualquer parte do mundo contactar anonimamente os serviços britânicos, numa iniciativa que visa, em particular, a recolha de informações provenientes da Rússia.




