A utilização de vapes entre jovens assume agora uma dimensão alarmante, após declarações da comissária belga para as drogas, Ine Van Wymersch, que alertou para o facto de a maioria dos cápsulas recarregáveis ilegais conter opioides sintéticos. Estes produtos representam um risco de dependência precoce e de consequências graves para o desenvolvimento cerebral das crianças.
Van Wymersch afirmou em entrevista ao Euronews que os produtos ilegais não apresentam cheiro ou cor específicos, tornando-os ainda mais perigosos. “Dos cápsulas recarregáveis ilegais que apreendemos, mais de 80% contêm opioides sintéticos”, disse a comissária no programa 12 Minutes With.
Sobre os riscos para a saúde, a responsável explicou que estas substâncias podem alterar o desenvolvimento do cérebro em crianças e adolescentes e gerar dependência precoce. “Estes são riscos sérios de saúde, e precisamos de proteger os jovens tomando medidas contra todas estas falhas na cadeia logística que são exploradas”, acrescentou.
Bélgica e Holanda como centros de produção de drogas sintéticas
Segundo Van Wymersch, a Bélgica, juntamente com a Holanda, é um importante país produtor de drogas sintéticas, fabricadas a partir de químicos provenientes da China e da Índia. Embora estas substâncias tenham finalidades legais na indústria petroquímica e farmacêutica, as organizações criminosas estão a explorar estas cadeias para introduzir opioides no mercado ilícito.
“Precisamos de pensar em formas de impedir que estes químicos entrem no nosso território”, alertou.
A comissária destacou ainda que os sabores de fruta e doces presentes nos vapes são explorados por organizações criminosas para atrair crianças. Em resposta, o Ministro da Saúde belga, Frank Vandenbroucke, pretende propor uma proibição total de sabores, tornando a Bélgica um dos países com regulação mais rigorosa da Europa. A decisão final ainda não tem data prevista.
Van Wymersch apoiou a iniciativa, afirmando: “Estou muito contente que o nosso Ministro da Saúde esteja a avançar na proibição destes sabores, porque as organizações criminosas estão a tirar partido disso para introduzir opioides sintéticos em crianças muito jovens”.
Além do perigo da dependência química, Van Wymersch sublinhou que adolescentes, especialmente menores desacompanhados e vulneráveis, estão a ser recrutados por organizações criminosas com promessas de vida de luxo. Esta prática também tem sido observada em cidades como Marselha, em França.
“Em Bruxelas, muitos jovens queixam-se de não encontrar emprego ou estágios. Se não lhes dermos oportunidades, as organizações criminosas oferecerão uma carreira criminal”, alertou a comissária.
Van Wymersch afirmou que a corrupção de autoridades – incluindo trabalhadores portuários, polícias e advogados – pelos lucros do tráfico representa uma ameaça séria. Um juiz de instrução de Antuérpia indicou que a Bélgica corre risco de se tornar um narco-estado, caso não haja ações preventivas.
“Não somos um narco-estado, mas temos de agir para não nos tornarmos. A Europol identificou recentemente a corrupção como uma grande preocupação”, concluiu Van Wymersch, alertando para a necessidade de atacar o modelo de negócio do tráfico para impedir que o país evolua nessa direção.












