“Menos coragem do que no tempo de Hitler”: Ucrânia critica falta de oposição a Putin pelos cidadãos russos

Sybiha recordou que, durante o Terceiro Reich, cerca de 800 mil cidadãos alemães foram presos por oposição à guerra, num país com 80 milhões de habitantes. Na Rússia de Putin, afirmou, apenas cerca de 20 mil pessoas num universo de 145 milhões

Francisco Laranjeira

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andriy Sybiha, declarou esta terça-feira que Adolf Hitler enfrentou mais oposição interna aos crimes do regime nazi do que Vladimir Putin enfrenta atualmente na Rússia. Numa publicação nas redes sociais, citada pelo ‘Kyiv Post’, o governante afirmou que a escala de dissidência russa é incomparavelmente menor, apesar da invasão da Ucrânia e das atrocidades associadas ao conflito.

De acordo com a publicação ucraniana, Sybiha recordou que, durante o Terceiro Reich, cerca de 800 mil cidadãos alemães foram presos por oposição à guerra, num país com 80 milhões de habitantes. Na Rússia de Putin, afirmou, apenas cerca de 20 mil pessoas, num universo de 145 milhões, foram detidas por contestação à guerra na Ucrânia. O ministro argumentou que estes números devem ser considerados quando se discute a responsabilidade dos cidadãos russos.



Sybiha acrescentou que os russos estão hoje “mais doutrinados, mais receosos ou mais propensos à agressão” do que os alemães do período nazi, classificando a situação como um “desastre moral” marcado por hostilidade contra outras etnias e pela disposição para cometer crimes de guerra.

Tribunal de Nuremberga como referência

O ministro sublinhou ainda que o 80º aniversário da abertura do Tribunal Militar de Nuremberga deve servir de alerta para que a Rússia — e os seus cidadãos — enfrentem as consequências da invasão de fevereiro de 2022 e do conflito mais destrutivo na Europa desde a II Guerra Mundial. Sybiha defendeu que apenas a justiça poderá restaurar os alicerces morais do continente.

Em contraponto, responsáveis russos como Sergey Lavrov têm insistido que as acusações de crimes de guerra são “politicamente motivadas” e “russófobas”. Numa entrevista divulgada na segunda-feira, Lavrov argumentou que a União Soviética liderou o esforço para julgar os líderes nazis em 1945 e acusou EUA e Reino Unido de colaborarem com a Alemanha hitlerista antes da guerra. Os comentários ignoraram, contudo, a participação soviética na invasão da Polónia em 1939 ao lado da Alemanha nazi, lembrada por historiadores independentes.

Narrativas internas e propaganda estatal

As afirmações de Lavrov surgiram um dia depois de Viktor Medvedchuk, ex-oligarca ucraniano próximo do Kremlin, ter dito à agência ‘TASS’ que a invasão russa era justificada e que a Ucrânia não sobreviveria como Estado. O canal ucraniano ’24 Kanal’ classificou as declarações como “narrativa falsa do Kremlin”. Medvedchuk fugiu do país pouco antes do ataque russo e é acusado de subversão a favor de Moscovo.

A linha oficial russa mantém-se alinhada com a posição de que a guerra é necessária, ao mesmo tempo que aplaude ações militares que se enquadram na definição clássica de crimes de guerra. Na televisão estatal ‘Rossiya 1’, o comentador Vladimir Solovyev defendeu a destruição de cidades ucranianas como Kiev, Kharkiv, Mykolaiv, Odessa, Sumy e Dnipro.

No campo da oposição russa no exílio, Mikhail Khodorkovsky reiterou que os crimes de guerra cometidos na Ucrânia são reais, mas defendeu que a culpa recai sobre a liderança de Putin e não sobre a população russa. Para o antigo oligarca, os cidadãos estão presos “pelo medo e pela propaganda”, e culpá-los ajudaria o Kremlin a consolidar a sua narrativa.

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