Europol desmantela rede global que clonou cartões de 4,3 milhões de pessoas em 193 países

A Executive Digest contactou a Europol para confirmar se há vítimas portuguesas entre os lesados, mas a agência europeia recusou-se a adiantar detalhes sobre os países afetados ou vítimas.

Pedro Gonçalves
Novembro 11, 2025
16:33

Uma operação internacional coordenada pela Europol desmantelou um esquema de fraude e branqueamento de capitais que afetou mais de 4,3 milhões de titulares de cartões de crédito em 193 países, com prejuízos estimados em mais de 300 milhões de euros. O caso, revelado no âmbito da Operação Chargeback, é considerado uma das maiores ações de combate ao cibercrime financeiro da última década.

A Executive Digest contactou a Europol para confirmar se há vítimas portuguesas entre os lesados, mas a agência europeia recusou-se a adiantar detalhes sobre os países afetados.



De acordo com o comunicado oficial da Europol, divulgado a 5 de novembro de 2025, “no dia 4 de novembro de 2025, uma ação coordenada internacionalmente visou três grandes redes de fraude e branqueamento de capitais, no âmbito da Operação Chargeback”. A investigação, iniciada em dezembro de 2020, foi liderada pela Landeszentralstelle Cybercrime (departamento de cibercrime da Procuradoria-Geral de Koblenz) e pelo Gabinete Federal de Polícia Criminal da Alemanha (Bundeskriminalamt), com o apoio de autoridades de vários países, entre eles Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Singapura, Luxemburgo, Chipre, Espanha, Itália e Países Baixos, bem como das agências Eurojust e Europol.

Três redes criminosas e 18 detenções
As investigações visaram 44 suspeitos que alegadamente integravam três redes criminosas especializadas em fraude digital e branqueamento de capitais. Entre os detidos encontram-se executivos e responsáveis de empresas de serviços de pagamento, intermediários, fornecedores de empresas de fachada e gestores de risco independentes. No total, 18 pessoas foram presas e mais de 60 buscas domiciliárias foram realizadas.

Na Alemanha, os investigadores efetuaram 29 buscas em vários estados federados e executaram cinco mandados de detenção, com a participação de mais de 250 agentes da polícia federal, da Procuradoria-Geral, da Autoridade Federal de Supervisão Financeira (BaFin) e de unidades de investigação fiscal. Foram apreendidos bens avaliados em mais de 35 milhões de euros na Alemanha e no Luxemburgo, incluindo viaturas de luxo, criptomoedas, telemóveis e outros equipamentos eletrónicos.

Um esquema sustentado em assinaturas falsas e pequenas cobranças
O comunicado da Europol detalha que, “entre 2016 e 2021, os suspeitos alegadamente usaram dados de cartões de crédito roubados para criar cerca de 19 milhões de assinaturas falsas em sites profissionalmente operados, principalmente de pornografia, encontros e serviços de streaming”.

Esses sites eram deliberadamente concebidos para escapar à indexação nos motores de busca, estando acessíveis apenas através de ligações diretas. O valor das cobranças, em média 50 euros mensais, era suficientemente baixo para que as vítimas não detetassem transações não autorizadas.

Os criminosos terão explorado a infraestrutura de quatro grandes empresas alemãs de pagamentos, que lhes permitiram processar e disfarçar as transações ilícitas em troca de comissões. A Europol adianta que seis suspeitos, incluindo executivos e responsáveis de conformidade, colaboraram diretamente com as redes fraudulentas.

Empresas de fachada no Reino Unido e Chipre ocultavam os lucros
Para mascarar o rasto do dinheiro, os grupos criminosos utilizaram empresas de fachada registadas no Reino Unido e no Chipre, fornecidas por operadores de “crime-as-a-service”, que disponibilizavam estruturas empresariais completas, incluindo diretores falsos e documentação KYC (Know Your Customer).

Estas empresas eram usadas para distribuir os fundos e reduzir o risco de deteção ou de pedidos de reembolso (“chargebacks”), tornando o esquema difícil de rastrear. O total de danos tentados ascende, segundo a Europol, a mais de 750 milhões de euros.

Cooperação internacional e resultados inéditos
A Operação Chargeback contou com a colaboração de nove países e o apoio da Eurojust, responsável pela coordenação judicial transfronteiriça. Foram emitidos mais de 90 pedidos de cooperação internacional dirigidos a 30 países, o que permitiu a apreensão de documentos, dados digitais e dispositivos de comunicação.

A diretora-executiva da Europol, Catherine De Bolle, destacou que “a Operação Chargeback é uma prova do poder da cooperação internacional no desmantelamento de redes criminosas complexas”, sublinhando que “o sucesso da operação demonstra o compromisso da Europol em estar à frente das ameaças criminais em constante evolução”.

Por sua vez, o Comissário Europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, afirmou que “a cooperação transfronteiriça dentro da União Europeia e com parceiros internacionais, coordenada pela Europol, conduz a resultados globais significativos”, defendendo o reforço do mandato da agência europeia “para garantir que as forças de segurança têm acesso aos dados necessários à luta contra o crime organizado”.

A Europol acompanha o caso desde maio de 2023, prestando apoio analítico, organização de reuniões operacionais e localização de suspeitos. Durante o dia da operação, a agência destacou peritos em criptomoedas no Luxemburgo e outros especialistas no centro de coordenação da Eurojust, em Haia.

A Eurojust facilitou também a cooperação com Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Singapura através da sua rede de procuradores e pontos de contacto. As provas recolhidas estão agora a ser analisadas, e as autoridades europeias admitem que novas ações judiciais possam decorrer nas próximas semanas.

Os suspeitos enfrentam acusações de fraude informática organizada, branqueamento de capitais e integração em organização criminosa. Embora a Europol não tenha confirmado a existência de vítimas portuguesas, os números e a dimensão da operação revelam a escala global de um dos maiores esquemas de fraude digital alguma vez registados.

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