Por Maria João de Figueiredo, CEO da Ciphra
Há palavras que, de tão usadas, parecem perder o peso que deveriam ter. “Cultura organizacional” é uma delas. Lemos, ouvimos, escrevemos sobre o tema, em relatórios, apresentações e até nas paredes das empresas. A verdade é que a cultura não se escreve nem se impõe. Vive-se e coloca-se em prática todos os dias.
É na forma como se decide, se ouve e se reage que a verdadeira cultura se revela. Não é sobre o que está no papel, é o que acontece quando ninguém está a ver. E é aí que muitas empresas em Portugal se distinguem: não pelas frases inspiradoras, mas pela coerência entre o que dizem e o que fazem. Ao longo dos anos tenho tido o privilégio de acompanhar equipas muito diferentes, e há um traço que separa as organizações que resistem das que apenas sobrevivem: cultura a acontecer.
A cultura é no fundo, o sistema imunitário de uma empresa. É o que permite reagir a imprevistos, aprender com o erro e recuperar de crises. Quando é fraca, qualquer obstáculo é transformado numa ferida. Quando é forte, a empresa regenera, adapta-se e segue, mais consciente e mais capaz. Há um equilíbrio que importa. Uma cultura excessivamente rígida aprisiona. Uma cultura demasiado volátil perde identidade e dissolve-se. A resiliência nasce exatamente deste ponto intermédio, da capacidade de manter um propósito estável, mas com abertura suficiente para evoluir. É um exercício de humildade e consistência.
Portugal tem empresas extraordinárias, com grandes histórias de superação mas continuam a existir estruturas fechadas, que temem o erro, e lideranças que confundem autoridade com controlo. Acredito que está na altura de olharmos para a cultura não como um projeto de recursos humanos, mas como o verdadeiro eixo estratégico de qualquer negócio. Cuidar da cultura é cuidar das pessoas. É dar-lhes espaço e confiança. É reconhecer que todos, contribuem para o que a empresa é e será. É compreender que um colaborador que sente pertença enfrenta melhor os desafios, acolhe melhor a mudança e responde com mais proatividade quando as circunstâncias o exigem.
O futuro das organizações no nosso país não depende apenas da tecnologia, da inovação ou da eficiência. Depende, sobretudo, da capacidade de cultivar culturas coerentes, humanas e resilientes. Culturas que unem propósito e prática. Porque, no final, a cultura é o reflexo de quem somos quando ninguém nos pede para ser. E é aí, nesse quotidiano silencioso, que se constrói a verdadeira força de uma empresa.
Cultura não se escreve. Pratica-se, todos os dias.





