Em apenas seis meses, PSP registou 3.734 queixas de pais que se dizem agredidos pelos filhos. São mais de 20 por dia

Só no primeiro semestre de 2025, foram registadas 3734 queixas deste tipo, um número que coloca a chamada violência filioparental como a relação mais frequente entre agressor e vítima no âmbito da violência doméstica.

Revista de Imprensa

A violência exercida por filhos contra os próprios pais tem vindo a ganhar expressão nas estatísticas da Polícia de Segurança Pública (PSP). Só no primeiro semestre de 2025, foram registadas 3734 queixas deste tipo, um número que coloca a chamada violência filioparental como a relação mais frequente entre agressor e vítima no âmbito da violência doméstica. Os dados foram revelados pelo jornal Público, que destaca o impacto crescente de um fenómeno muitas vezes escondido dentro das famílias.

Os números agora conhecidos só foram possíveis graças ao novo método de registo da PSP, que passou a assinalar de forma precisa a relação entre vítima e denunciado. “Começámos a ver que estava a ganhar alguma expressão e a dar atenção. Tentámos criar mecanismos para obter números mais concretos”, explicou a comissária Patrícia Firmino ao Público. Antes, todas as denúncias entravam como violência doméstica sem especificar a relação familiar, o que dificultava a compreensão da dimensão real do problema.

Entre os casos mais recentes relatados pela PSP, encontram-se episódios de grande violência. No Seixal, a 6 de agosto, um jovem de 19 anos foi detido após ter agredido violentamente os pais, ameaçando-os de morte. No local, a polícia encontrou várias armas, munições e droga, levando o tribunal a decretar-lhe prisão preventiva. Poucos dias antes, em Caldas da Rainha, um homem de 57 anos foi acusado de ameaçar o pai de 88 anos e de exercer violência psicológica sobre os progenitores, apesar de já se encontrar em prisão domiciliária por outro processo semelhante. Também em Faro, a 15 de julho, um homem de 41 anos foi detido depois de a mãe, de 67 anos, ter sido encontrada com múltiplas lesões no corpo e no rosto.

Os dados mostram que a violência filioparental atravessa várias idades, tanto de vítimas como de agressores. “Existem requisitos cumulativos. Primeiro, tem de haver coabitação de descendentes e ascendentes. Depois, os pais ou os substitutos têm de ser vulneráveis em razão de idade, deficiência, doença, gravidez ou dependência económica”, explicou a comissária Patrícia Firmino. A responsável sublinha ainda que a falta de autonomia dos pais, a sobrecarga dos filhos cuidadores e a dependência económica destes últimos são fatores que agravam a situação. “Filhos que não tinham rendimentos acabavam por exercer algum tipo de violência porque queriam ficar com os rendimentos dos pais, muitas vezes para sustentar vícios no jogo, no consumo de substâncias ou de álcool”, acrescentou.

Comparando os números atuais com anos anteriores, não se verificam grandes oscilações: 3989 casos no primeiro semestre de 2023 e 3890 em 2024. No entanto, a violência nas relações de intimidade continua a ser a categoria mais numerosa dentro da violência doméstica, com 6937 ocorrências registadas entre janeiro e junho de 2025, das quais 3521 entre cônjuges, 1699 entre ex-cônjuges, 787 entre namorados e 930 entre ex-namorados.

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Apesar da afinação dos registos por parte da PSP, os relatórios anuais de segurança interna ainda não refletem esta mudança, uma vez que combinam dados da PSP e da GNR. “Até que o mecanismo seja afinado isto demora muito tempo, daí a discrepância”, reconheceu Patrícia Firmino. Também a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) alerta para a importância de uma metodologia clara. Para Carla Ferreira, técnica da APAV, “as diferenças metodológicas estão a comprometer uma melhor compreensão do fenómeno da violência doméstica”.

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