IRS: Reembolsos reduzem em mais de 215 milhões de euros só no primeiro mês da campanha

Até ao final de abril, o montante devolvido cifrou-se em 402,2 milhões de euros, o que representa menos 215,8 milhões de euros face ao mesmo período do ano passado — uma quebra de 35%.

Revista de Imprensa

No arranque da campanha de liquidação do IRS referente aos rendimentos de 2024, os reembolsos pagos pelo Estado aos contribuintes registaram uma queda significativa. Até ao final de abril, o montante devolvido cifrou-se em 402,2 milhões de euros, o que representa menos 215,8 milhões de euros face ao mesmo período do ano passado — uma quebra de 35%. Trata-se do valor mais baixo num primeiro mês de reembolsos desde 2020, ano em que os pagamentos foram adiados devido ao contexto pandémico.

A informação consta dos dados da execução orçamental das administrações públicas publicados pela Entidade das Contas e Finanças Públicas (antiga Direção-Geral do Orçamento), consultados pelo Jornal de Negócios, que evidenciam um abrandamento sem precedentes no ritmo de reembolsos face aos últimos cinco anos.



A quebra nos reembolsos pode estar diretamente relacionada com as alterações nas tabelas de retenção na fonte implementadas no final de 2024. Após a aprovação, no verão passado, de uma redução extraordinária das taxas de IRS pelo Parlamento, milhares de trabalhadores com rendimentos até 1.175 euros brutos mensais deixaram de ter descontos em setembro e outubro, graças às novas tabelas provisórias.

Essa diminuição temporária das retenções teve como efeito imediato o aumento do rendimento líquido mensal dos contribuintes. De acordo com o Banco de Portugal, o rendimento real das famílias portuguesas subiu 7,8% em termos anuais, impulsionado não só pela menor carga fiscal como também por um bónus extraordinário nas pensões. Essa melhoria no poder de compra contribuiu para um aumento do consumo — sobretudo de bens duradouros — e para um crescimento do PIB de 1,4% no quarto trimestre de 2024.

Contudo, como já alertou o Conselho das Finanças Públicas (CFP), este fenómeno traduziu-se sobretudo numa transferência de receita entre exercícios orçamentais, com implicações diretas nos reembolsos deste ano. O CFP antevê mesmo uma quebra global nos reembolsos de IRS de 1.167 milhões de euros em 2025, o que equivale a quatro décimas do PIB. Este valor contrasta com os 0,3% de excedente orçamental projetado pelo Governo da AD ainda antes do final da legislatura anterior.

Paradoxalmente, enquanto os reembolsos caem, a receita de IRS está a acelerar. Até abril, o Estado arrecadou mais 492,3 milhões de euros em comparação com o mesmo período de 2024 — um crescimento homólogo de 9,1%, após um avanço de 4,8% no final de março. O total já arrecadado ronda os 5,9 mil milhões de euros.

Vários fatores ajudam a explicar este aumento: o menor volume de reembolsos, a resiliência do mercado de trabalho e as subidas salariais ainda acima da inflação. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam para um crescimento de 5,3% na média salarial nominal no primeiro trimestre deste ano, acima dos 4,6% de atualização dos escalões de IRS inscritos no Orçamento do Estado para 2025. Além disso, as novas tabelas de retenção em vigor desde janeiro só subiram 1% face às de dezembro, que já incorporavam os ajustamentos extraordinários decididos no final do ano anterior.

Recorde-se que o Orçamento do Estado para 2024 introduziu reduções nas taxas marginais de IRS até ao 5.º escalão, uma atualização de 3% dos escalões de rendimento e uma revisão do mínimo de existência, acompanhando a subida do salário mínimo. Em julho de 2024, ainda durante o governo de António Costa, o Parlamento aprovou uma nova descida das taxas de IRS. Posteriormente, o Executivo de Luís Montenegro implementou medidas transitórias nas retenções na fonte, que vigoraram até ao final do ano.

Com a entrada em vigor do Orçamento para 2025, voltou a haver aumento no mínimo de existência, bem como subida da dedução específica e atualização de escalões em 4,6%. Estas alterações continuam a produzir efeitos nos cálculos de IRS em curso.

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