Num momento em que os receios de uma nova recessão global ganham força, impulsionados pelas tarifas comerciais impostas pelo governo de Donald Trump, ressurgem fenómenos curiosos do comportamento económico em tempos de crise.
Entre eles, destaca-se o chamado efeito batom, uma teoria que sugere que, mesmo quando os consumidores apertam os cintos, há certos produtos que escapam à regra — e até veem as suas vendas aumentar.
O conceito foi popularizado por Leonard Lauder, presidente da Estée Lauder, que notou que, durante a recessão de 2001, as vendas de batons nos Estados Unidos subiram 11%. A explicação? Apesar de deixarem de comprar carros ou joias, os consumidores continuavam a procurar pequenos prazeres que não exigissem grandes gastos — como um batom ou um perfume.
“Em economia, falamos de bens inferiores, cuja procura aumenta quando o rendimento cai, porque substituem bens mais caros. No caso dos cosméticos, parece haver uma substituição de outros luxos inacessíveis durante crises económicas”, explica Leticia Poole, professora de Economia e Negócios da Universidade Europeia de Valência, ao ’20 Minutos’.
Embora o termo tenha ganho notoriedade no início dos anos 2000, o fenómeno remonta a períodos anteriores. Durante a Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill promoveu o uso de batom como símbolo de moral e patriotismo. Durante a Grande Depressão, após a queda de Wall Street em 1929, o setor da cosmética manteve-se surpreendentemente resiliente. O mesmo se verificou na crise financeira de 2008 e até nos anos 90.
“O efeito batom reflete uma realidade psicológica: em tempos difíceis, as pessoas precisam de mimos. E um batom de 4 euros é um luxo que muitos podem pagar”, refere a economista, destacando que a teoria está diretamente ligada à ideia de “luxos acessíveis”.
A pandemia de Covid-19 também trouxe novas perspetivas sobre o tema. Apesar do uso generalizado de máscaras, que afetou diretamente o consumo de batons, outros produtos como perfumes, cremes ou até alimentos gourmet registaram um aumento na procura, reforçando o conceito de que o desejo por pequenos prazeres se mantém mesmo em tempos adversos.




