Uma Cortina de Ferro do Ártico ao Mar Negro? Como será a Europa dentro de cinco anos após o ‘furacão’ Trump?

As ações e declarações do presidente dos EUA prejudicaram o equilíbrio da OTAN e geraram tensões entre os estados-membros da UE. Donald Trump pode realmente acabar com a aliança transatlântica ou apenas a fazer ‘bluff’?

Francisco Laranjeira

As ações e declarações do presidente dos EUA prejudicaram o equilíbrio da OTAN e geraram tensões entre os estados-membros da UE. Donald Trump pode realmente acabar com a aliança transatlântica ou apenas a fazer ‘bluff’?

Segundo Heinz Gärtner, cientista político austríaco e especialista em política externa americana e segurança internacional, “a aliança transatlântica não terminará”. Isto porque, segundo o especialista, os EUA não deixarão a NATO “porque, através dela, têm uma influência considerável sobre os Estados-membros europeus”. “O que Trump fez foi tornar visíveis as relações de dependência dentro da aliança transatlântica”, enfatizou. Gärtner lembrou ainda que o ex-presidente Joe Biden também destacou o papel da liderança americana, “mas, ao contrário do estilo de Trump, os europeus geralmente eram informados com antecedência sobre as intenções dos EUA”. O Velho Continente tem agora uma nova oportunidade para se ‘reinventar’: neste contexto de rearmamento ideológico e literal, muitos se perguntam como será a Europa daqui a cinco anos?



Cenário 1. Uma nova Cortina de Ferro

Heinz Gärtner, citado pela publicação ‘El Confidencial’, lembrou que a história mostra que “são criadas zonas de influência onde se encontram os exércitos”, recordando que está a ser criada, na fronteira entre a Finlândia e Rússia, uma moderna ‘Cortina de Ferro’ com uma cerca eletrónica inteligente desde 2023, sendo expectável que a construção termine até 2027 e 2028. O objetivo inicial era coibir a imigração tanto de fora da Europa como de russos que fugiam do alistamento militar. Agora, preparam-se para outras possibilidades.

“Devemos estar prontos e preparados para prevenir e responder a crises, conflitos e até mesmo aos cenários mais sérios, como a guerra”, resumiu a ministra do Interior finlandesa, Mari Rantanen. Estão a ser instalados novos sistemas de armas, nos dois lados da fronteira. Para Gärtner, um cenário possível é “a criação de uma nova Cortina de Ferro do Ártico até ao Mar Negro, que atravessaria a Ucrânia”. O resultado seria o rearmamento dos países e “uma intensificação do dilema da segurança”, ou seja, o conceito de que quanto mais um Estado fortalece a sua própria segurança, mais alimenta a insegurança e os medos dos outros Estados.

Infelizmente, “acho que os europeus têm clareza de que não regressaremos ao status quo anterior”, apontou Lisa Musiol, chefe do programa da UE no International Crisis Group, garantindo ter havido uma mudança fundamental na maneira como “os europeus entendem a ameaça à segurança representada pela Rússia” e “também reconhecem, ou estão a começar a reconhecer, que os Estados Unidos não são um parceiro tão confiável quanto eles gostariam”.

Cenário 2. O contra-modelo, para evitar o dilema da segurança

“Ambos os lados do continente europeu — a Rússia de um lado, e os europeus e a Ucrânia do outro — desconfiam um do outro e veem-se como uma ameaça” admitiu Mosiul. Segundo um relatório do Crisis Group, “vemos ambos os lados a aumentar as suas capacidades de defesa e dissuasão”. Assim, “esta ordem de segurança europeia baseada na dissuasão terá de ser gerida com muito cuidado porque é bastante perigosa, e isso exigiria mais esforços na frente diplomática”. Para Gärtner, existe um contra-modelo para o período após a guerra russa, onde será necessária “uma grande conferência internacional” para a “criação de um sistema de segurança comum no qual a segurança é considerada indivisível”.

Cenário 3. Tudo se arrasta?

Para Musiol, “este momento é muito decisivo”, sublinhando que “o que está a acontecer agora, nas próximas semanas e meses, será crucial não apenas para a segurança da Ucrânia, mas também para a segurança europeia e a forma que ela tomará”. Embora Trump esteja a pressionar por um acordo rápido, o Crisis Goup prevê que “as negociações vão arrastar-se”. Poderá haver mais negociações entre os EUA e a Rússia; e ainda mais amplas com ucranianos e europeus. Musiol também acredita que Trump perceberá “que Putin não está realmente interessado num acordo”, então “o cenário mais provável é que isso se arraste”.

Cenário 4. Uma espiral de unilateralismo

O novo Governo americano também gerou tensões dentro da própria UE, reacendendo a antiga rivalidade entre Meloni e Macron. “Gostaria de saber em que função o senhor foi a Washington “, perguntou a primeira-ministra italiana ao presidente francês durante o encontro de líderes europeus. Uma semana antes, Meloni compareceu à convenção conservadora MAGA em Washington.

Dentro dos Governos europeus, começam a surgir divergências entre os 27, apesar de os líderes políticos terem endossado por unanimidade a proposta de Von der Leyen de mobilizar 800 mil milhões de euros em fundos de defesa ao longo de quatro anos. Nos Países Baixos, o Parlamento holandês votou contra o plano de rearmamento. Em Paris, à esquerda de Macron, a La France Insoumise recusa-se a ouvir falar de rearmamento: e à direita de Macron, para Le Pen, “a Rússia não é o principal perigo que França enfrenta”, mas sim “o fundamentalismo islâmico”.

No curto prazo, na Europa Central, duas eleições podem ser decisivas. Na Polónia, onde as eleições presidenciais serão realizadas a 18 de maio, o tom contra a Rússia está a endurecer. O atual presidente Andrzej Duda pediu aos EUA que transferissem armas nucleares para o seu território. Enquanto isso, o candidato do PiS, Karol Nawrocki, pediu o corte de relações diplomáticas com Moscovo. Na República Checa, o bloco governante da atual coligação de centro-direita é pró-europeu, mas o seu principal de oposição, o ODS, se opõe a uma maior integração.

Cenário 5. A extrema-direita está a crescer, uma bomba vinda de dentro

Para alguns analistas, o apoio da Administração Trump a partidos de extrema-direita ressaltou a agenda global do presidente americano, semelhante à do Kremlin desde meados da década de 2010, que desmantelaria a Europa por dentro, tornando-a irrelevante diante da nova ordem global. Para Heinz Gärtner, as forças de extrema-direita na Europa veem Trump como um aliado, “especialmente em termos de política anti-imigração”. E isso pode significar que muitos países europeus “procuração a boa vontade do presidente americano, aumentarão os gastos com defesa e comprarão mais armas e GNL americanos”.

Cenário 6. Carta russa de Kissinger

Se Trump jogar a carta da Rússia contra a China, aproximando-se de Putin, a UE jogará a carta da China contra Trump? Gärtner explicou que o que Trump está a tentar fazer “é separar a Rússia da China”, à semelhança do que fizeram o presidente Nixon e o secretário de Estado Kissinger em 1972. O especialitas indicou que “Trump sabe que a Rússia já perdeu a sua posição como uma superpotência global — além das armas nucleares e se tornou o parceiro júnior da China globalmente”.

A Rússia não conseguiu impedir a queda do seu aliado mais importante, Al-Assad na Síria, devido ao seu envolvimento militar na Ucrânia, e outro aliado, o Irão, perdeu relevância. Gärtner acredita que a reaproximação entre Trump e Putin não mudará isso e que “os líderes europeus ficarão do lado dos EUA no conflito contra a China”, embora “quase dois terços dos cidadãos da UE acreditem que a Europa deve permanecer neutra em tal conflito”, acrescentou.

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