O Partido Liberal do Canadá inicia uma nova fase com a escolha do sucessor de Justin Trudeau, que anunciou a sua renúncia mais cedo este ano em meio a uma queda acentuada de popularidade. Hoje, cerca de 400 mil membros do partido são chamados às urnas para decidir o próximo líder da formação política que governa o país desde 2015. O desfecho do processo será fundamental para os liberais, que se preparam para enfrentar uma eleição legislativa antecipada, num contexto marcado pela ascensão do populismo de direita e pelo impacto das políticas agressivas do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Nos últimos meses, Trump intensificou a retórica hostil contra o Canadá, aplicando tarifas generalizadas e chegando a ameaçar a anexação do país como o 51.º estado norte-americano. Essa postura provocou uma onda de patriotismo entre os canadianos, fortalecendo a perceção de que a liderança do país deve adotar uma postura firme contra a ingerência dos EUA. “O sentimento de unidade nacional tem sido reavivado devido a essas ameaças”, afirmou Efe Peker, professor da Universidade de Ottawa e especialista em populismo. “O que começou como uma piada tornou-se uma preocupação séria.”
Mark Carney lidera corrida pela sucessão
O favorito para suceder Trudeau é Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá e do Banco de Inglaterra, que conta com o maior número de apoios internos e um financiamento robusto. Carney tem apostado num discurso pragmático, enfatizando a necessidade de estabilidade económica e de uma abordagem responsável para enfrentar os desafios do país. Analistas consideram que a sua imagem de “moderado experiente” pode ser um trunfo contra a onda populista que tem crescido no país.
Outra figura em destaque na corrida é Chrystia Freeland, ex-ministra das Finanças e negociadora-chefe dos acordos comerciais com os Estados Unidos durante a administração Trump. Apesar da sua vasta experiência, Freeland enfrenta dificuldades para se distanciar da gestão de Trudeau, o que pode ser um entrave na conquista de eleitores indecisos.
Adaptação à realidade política atual
A estratégia dos liberais tem passado por tentar atrair eleitores conservadores descontentes, adotando medidas como o abandono da taxa de carbono sobre os consumidores, uma das principais políticas ambientais de Trudeau. Além disso, os candidatos têm enfatizado a necessidade de limitar a imigração e reforçar as forças armadas do país. Essas posições aproximam-se das propostas defendidas por Pierre Poilievre, líder do Partido Conservador e atual favorito nas sondagens, embora a sua vantagem tenha diminuído nos últimos meses.
“Os liberais estão a tentar posicionar-se como um partido anti-populista, mas ao mesmo tempo respondem às preocupações dos eleitores atraídos pelo populismo”, explicou Stewart Prest, professor da Universidade da Colômbia Britânica. “Ainda não está claro se essa estratégia será eficaz.”
Relação com os EUA e desafios futuros
A dinâmica entre o Canadá e os Estados Unidos tem sido um dos temas centrais da campanha, rivalizando com questões económicas, como o custo de vida, entre as maiores preocupações do eleitorado. Trump, ao lançar sucessivas ameaças e medidas protecionistas, ajudou a desviar as atenções dos problemas internos do governo Trudeau, reforçando a necessidade de uma liderança canadiana mais assertiva na cena internacional.
“Se conseguirmos abordar de forma mais agressiva algumas das causas percebidas para os problemas de acessibilidade económica, daremos aos canadianos uma sensação de que as coisas não estão tão desorganizadas como parecem”, afirmou Tyler Meredith, consultor de gestão e ex-assessor de política económica de Trudeau.
Com a escolha do novo líder liberal e a possibilidade de eleições antecipadas, o Canadá entra numa fase decisiva para definir o seu futuro político e a sua relação com os Estados Unidos num período de incerteza global.










