Com fita adesiva e explosivos: pilotos de drones da Ucrânia travam uma guerra com armas improvisadas e de baixo custo

Mykhailo Federov, ministro da Transformação Digital da Ucrânia, sustentou que o Governo está empenhado em construir um “exército de drones” de última geração e que o seu valor para o esforço de guerra será evidente até ao final de 2023

Francisco Laranjeira
Setembro 25, 2023
18:55

Os drones têm sido os ‘grandes vencedores’ do conflito na Ucrânia, conforme relatou esta segunda-feira a ‘Associated Press’: dezanove meses após a invasão da Rússia, e conforme avança a contraofensiva de Kiev, o Governo ucraniano quer gastar mais de mil milhões de dólares para melhorar as suas capacidades de combate com drones. Seja para efeitos para reconhecimento, lançamento de bombas ou autoexplosão com o impacto, os drones provaram ser capazes de economizar dinheiro e a vida dos soldados. São também mais precisos do que a artilharia tradicional e podem produzir impactos descomunais, seja o mapeamento em tempo real do campo de batalha, a destruição de tanques e navios e a paralisação dos avanços russos.

No entanto, as vantagens dos drones podem ser passageiras: o exército russo, que depende da experiência iraniana para o seu próprio ‘enxame’ de drones mortais, tem dado melhor resposta aos ataques ucranianos. O sucesso, segundo um comandante de uma unidade de pilotos de drones, “reside na constante interação e inovação no campo de batalha”.



Mykhailo Federov, ministro da Transformação Digital da Ucrânia, sustentou que o Governo está empenhado em construir um “exército de drones” de última geração e que o seu valor para o esforço de guerra será evidente até ao final de 2023. Kiev já treinou mais de 10 mil novos pilotos de drones este ano. “Vai começar em breve uma nova etapa da guerra”, garantiu Federov.

A unidade de Giocondo (nome de guerra do comandante da unidade de pilotos de dones) opera perto da cidade ocupada de Svatove, no nordeste da Ucrânia e passou meses a modificar drones para permitir que estes voem mais profundamente atrás das linhas inimigas e escapassem melhor à deteção e sabotagem russas. Entre os seus pilotos, todos são voluntários e muitos não tinham experiência militar antes da invasão russa.

De acordo com a ‘Associated Press’, um dos pilotos dá pelo nome de Bakeneko, que, com um display na cabeça, conduz um drone carregado de explosivos em direção a um tanque de fabrico soviético avistado momentos antes por um drone de reconhecimento. Vai operando o dispositivo ao som da banda alemã de heavy metal ‘Powerful’, garantindo que “não pode voar em silêncio”. A poucos metros, outro soldado, um ex-gerente de vendas antes da guerra, prepara explosivos, utilizando algemas flexíveis de plástico e fita adesiva, para transformar um drone comercial barato numa máquina mortal.

É de noite que as tropas ucranianas ganham vantagem: por vezes, os pilotos de Kiev conseguem avistar as sombras em movimento dos soldados de infantaria russos. Vasculhar a paisagem para encontrar um alvo demora horas e a Rússia melhorou a arte de se esconder e camuflar.

A crescente dependência de drones explosivos de curto alcance na linha de frente levou os russos a implantar mais dispositivos portáteis de interferência, garantem as autoridades ucranianas, o que forçou a unidade de Giocondo, e outras, a conceber contramedidas criativas.

Após três meses de tentativa e erro, os soldados ucranianos que operavam na aldeia oriental de Andriivka, a sul de Bakhmut, descobriram como escapar aos dispositivos de interferência russos – a solução fez com que a aldeia fosse recapturada no início de setembro, sendo que um porta-voz do batalhão que conquistou a vila salientou que a explosão de drones foi fundamental uma vez que forçou os russos a recuar o armamento pesado para cerca de 15 quilómetros para ficarem fora de alcance.

Desde os primeiros dias da guerra, a Rússia tem utilizado drones de longo alcance e de nível militar para infligir danos devastadores e terror psicológico na capital da Ucrânia, Kiev, e noutras cidades. Com o tempo, os militares ucranianos responderam, lançando os seus próprios drones de nível militar bem atrás das linhas inimigas, visando navios de guerra no Mar Negro , um aeroporto na Rússia Ocidental e até edifícios em Moscovo.

A contraofensiva que começou em junho esgotou dinheiro, artilharia e soldados – e não rendeu tanto impulso como o esperado pela Ucrânia. Perante esses desafios, o líder de um esquadrão de elite de drones, chamado Grupo Asgard, que supervisiona a unidade de Giocondo, percebeu uma oportunidade. O líder, um ex-empresário, instruiu os seus soldados a começarem por atacar o grande e caro armamento da Rússia com drones pequenos e baratos.

A lógica era simples, segundo o responsável: drones explosivos custam cerca de 400 dólares para serem fabricados, já um projétil convencional pode custar quase 10 vezes mais. Mesmo que sejam necessários vários drones para destruir um tanque – e às vezes isso acontece – ainda vale a pena. A estratégia teve o benefício adicional de colocar em risco menos vidas de soldados.

Mas foi necessário modificar os drones comerciais com hardware e software para se adequarem ao campo de batalha, permitindo-lhes penetrar mais profundamente atrás das linhas inimigas sem serem detetados ou bloqueados. A unidade do ex-empresário, formada por engenheiros, gerentes corporativos e cineastas, tornou-se uma força de combate de elite – a sua equipa de 12 homens, com apenas 700 mil dólares, já destruiu cerca de 80 milhões de dólares em equipamentos russos.

O Governo ucraniano quer agora potenciar estes esforços com uma infusão de dinheiro: o projeto de orçamento para 2024 inclui 1,21 mil milhões de euros adicionais em gastos com Defesa destinados à compra de drones. “Estamos a fazer tudo para que as empresas invistam na produção de vários drones”, sublinhou Federov, que estimou que a produção nacional vai crescer 100 vezes acima do nível do ano passado. Desde março último, pelo menos oito novas empresas ucranianas que constroem drones explosivos foram formadas como parte da iniciativa.

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