Os mercados petrolíferos estão a preparar-se para um possível choque de oferta após os ataques dos Estados Unidos ao Irão durante o fim de semana, que reavivaram os receios de perturbações no fluxo energético através do Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais importantes do planeta.
Os analistas antecipam uma reação imediata e automática dos preços do petróleo quando os mercados de Nova Iorque reabrirem, mas alertam que o fator determinante será a duração de um eventual conflito militar entre os Estados Unidos e o Irão e a sua extensão regional.
“Neste momento parece que estamos a assistir a um conflito militar em larga escala entre os Estados Unidos e o Irão, algo sem precedentes e cuja trajetória é impossível de prever”, afirmou Vandana Hari, diretora executiva da empresa de investigação energética Vanda Insights.
A especialista acrescentou que, caso o conflito se prolongue durante vários dias com retaliações iranianas e das suas milícias aliadas, “estamos perante os piores cenários para o petróleo, incluindo uma grande perturbação nos fluxos petrolíferos no Médio Oriente”, a menos que os Estados Unidos consigam neutralizar antecipadamente a marinha e as capacidades militares iranianas e garantir o trânsito normal de petroleiros.
O estreito de Ormuz como ‘gargalo’ energético mundial
O Estreito de Ormuz, situado entre Omã e o Irão, funciona como um ponto estratégico de passagem entre os grandes produtores do Golfo e os mercados globais.
Em 2025, cerca de 13 milhões de barris de petróleo por dia atravessaram este estreito, representando aproximadamente 31% de todo o petróleo transportado por via marítima a nível mundial, de acordo com dados da Kpler.
O canal liga produtores fundamentais como Arábia Saudita, Irão, Iraque e Emirados Árabes Unidos ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.
Segundo a Reuters, navios comerciais receberam mensagens via rádio da Guarda Revolucionária iraniana, avisando que “nenhum navio pode atravessar o Estreito de Ormuz”. Contudo, não existe confirmação oficial de Teerão sobre uma ordem formal de encerramento da passagem marítima.
O Irão já ameaçou repetidamente bloquear este corredor em resposta a ataques contra o país.
Mercados antecipam prémio de risco imediato
Bob McNally, presidente da Rapidan Energy Group, classificou a situação como “um desenvolvimento muito sério” para os mercados globais de petróleo e gás, devido à forte dependência mundial das rotas e da produção que atravessam Ormuz.
O fator mais relevante, segundo os especialistas, é o tempo de duração do conflito. A amplitude da subida dos preços dependerá da extensão das perturbações na produção e no transporte de energia no Golfo Pérsico.
Saul Kavonic, responsável de investigação energética da MST Marquee, afirmou que as primeiras indicações apontam para ataques de grande escala ao Irão, com retaliações que podem envolver vários países do Golfo.
O analista explicou que os mercados vão inicialmente precificar um espectro de riscos, desde a perda de até dois milhões de barris diários de exportações iranianas até ataques a infraestruturas energéticas regionais ou, no cenário mais extremo, a interrupção da passagem por Ormuz.
“Se o regime iraniano sentir que enfrenta uma ameaça existencial, não se pode excluir a tentativa de bloquear o Estreito de Ormuz”, disse, acrescentando que os Estados Unidos e aliados provavelmente mobilizariam escoltas militares para proteger as rotas marítimas.
Cenário extremo pode recordar crises petrolíferas dos anos 70
Os analistas admitem vários cenários, desde perturbações limitadas até um bloqueio total da passagem marítima.
O maior risco para a economia mundial não seria apenas a perda das exportações iranianas, mas sim a interrupção generalizada do transporte marítimo através do estreito.
“Os primeiros indícios apontam para ataques de grande escala contra o Irão, com contra-ataques que podem arrastar vários países do Golfo”, explicou Kavonic.
O especialista alertou que os mercados podem enfrentar um cenário em que o petróleo ultrapasse os 100 dólares (cerca de 92 euros) por barril, além de um possível regresso dos preços do gás natural liquefeito aos máximos históricos de 2022.
Kavonic considerou mesmo que o cenário mais grave poderia ser “três vezes mais severo do que o embargo petrolífero árabe e a revolução iraniana dos anos 70”, o que teria impacto profundo na economia global.
O Brent encerrou a última sessão nos 72,48 dólares (aproximadamente 66,7 euros), com uma valorização anual de cerca de 19%. Já o WTI fechou nos 62,02 dólares (cerca de 57,1 euros), com subida de cerca de 16% desde o início do ano.
Ataque a infraestruturas sauditas é cenário de maior risco
Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, afirmou que os ataques aumentam significativamente o risco de interrupção no fornecimento energético regional, mesmo que as infraestruturas petrolíferas iranianas ainda não tenham sido diretamente atingidas.
O cenário mais grave seria “um ataque às infraestruturas petrolíferas da Arábia Saudita seguido do encerramento completo do Estreito de Ormuz”.
Lipow estima a probabilidade desse cenário em cerca de 33%, considerando que o Irão poderá sentir-se encurralado e optar por respostas mais agressivas.









