Rússia, Estados Unidos e China construíram novas instalações e cavaram novos túneis nos seus locais de testes nucleares nos últimos anos, segundo revelou esta sexta-feira a ‘CNN’, numa altura em que a tensão entre as três principais potências nucleares atingiu o ponto mais alto nas últimas décadas.
Embora não existam provas que sugiram que os três países estejam a preparar-se para um teste nuclear iminente, as imagens de satélite fornecidas por um analista em estudos militares de não-proliferação nuclear indicam expansões recentes em três locais de testes nucleares – um deles é operado pela China, na região do extremo oeste de Xinjiang, um pela Rússia, num arquipélago do Oceano Ártico, e outro pelos EUA, no deserto de Nevada.
Not good: Satellite images show increased activity at nuclear test sites in Russia, China and US
Kudos to @ArmsControlWonk & his team at @JamesMartinCNS for uncovering thishttps://t.co/BEWqBcwN0O
— Hanna Notte (@HannaNotte) September 22, 2023
As imagens de satélite dos últimos cinco anos mostram novos túneis sob as montanhas, novas estradas e instalações de armazenamento, bem como um aumento do tráfego de veículos, indicou Jeffrey Lewis, professor adjunto do James Martin Center for Nonproliferation Studies no Middlebury Institute of International Studies nos Estados Unidos.
“Há realmente muitos indícios que sugerem que a Rússia, a China e os Estados Unidos podem retomar os testes nucleares”, revelou, salientando que nenhum destes países realizou um desde que os testes nucleares subterrâneos foram proibidos em 1996. De acordo com o coronel reformado da Força Aérea americana, Cedric Leighton, ex-analista de inteligência, viu as imagens das instalações das três potências e chegou a uma conclusão semelhante. “É muito claro que todos os três países, Rússia, China e Estados Unidos, investiram muito tempo, esforço e dinheiro não só na modernização dos seus arsenais nucleares mas também na preparação dos tipos de atividades que seriam necessárias para um teste.”
As expansões correm o risco de fazer desencadear uma corrida para modernizar a infraestrutura de testes de armas nucleares num momento de profunda desconfiança entre Washington e os dois governos autoritários, segundo alertaram diversos analistas, embora a ideia de um conflito armado real não seja considerada iminente. “A ameaça dos testes nucleares depende do grau em que aceleram a crescente corrida armamentista entre os Estados Unidos, por um lado, e a Rússia e a China, por outro”, referiu Lewis. “As consequências disso são que gastamos grandes somas de dinheiro, mesmo que não fiquemos mais seguros.”
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, já apelou aos principais países para que ratificassem o tratado internacional que proíbe experiências para fins pacíficos e militares. “Este ano, enfrentamos um aumento alarmante na desconfiança e divisão global”, sublinhou. “Numa altura em que quase 13 mil armas nucleares estão armazenadas em todo o mundo – e os países estão a trabalhar para melhorar a sua precisão, alcance e poder destrutivo – esta é uma receita para a aniquilação.”
A Rússia cumpriu uma expansão do local de testes nucleares do país em Novaya Zemlya, no Oceano Ártico, que recebeu atenção renovada depois de uma visita do ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu. Novaya Zemlya foi usado pela primeira vez pela União Soviética para realizar testes nucleares em 1955, até a última explosão subterrânea da URSS em 1990. Nesse período, foram realizados 130 testes com mais de 200 dispositivos. “O local de testes russo está aberto o ano todo, vemos como limpam a neve das estrada e constroem novas instalações”, referiu Lewis. “Nos últimos cinco ou seis anos, vimos a Rússia a cavar novos túneis, o que sugere que está preparada para retomar os testes nucleares.”
“É bastante claro para mim que os russos estão a preparar-se para um possível teste nuclear”, acrescentou Leighton, embora tenha ressalvado que “podem estar a fazer todos os preparativos para um teste nuclear mas sem o realizar efetivamente. No fundo, estariam a fazê-lo para ‘assustar’ o Ocidente'”, atirou.
O aumento da atividade também foi detetado no local de testes nucleares chinês em Lop Nur, um lago salgado seco entre dois desertos no oeste da China. A principal área de administração e apoio tem visto novos projetos de construção, tendo sido construída uma nova área de armazenamento entre 2021 e 2022, que poderá ser utilizada para armazenamento de explosivos. O grupo ‘China Observer da Sasakawa Peace Foundation’ alertou que é “possível que o objetivo chinês seja realizar testes nucleares subcríticos”.
Os EUA realizaram o seu último teste subterrâneo em 1992 mas, de acordo com Lewis, estão há muito num estado de prontidão para um teste nuclear, prontos para reagir se um dos rivais agir primeiro. “Os Estados Unidos têm uma política de estar preparados para realizar um teste nuclear num prazo relativamente curto, cerca de seis meses”, disse. De acordo com as imagens de satélite, as instalações subterrâneas foram expandidas entre 2018 e 2023.
De acordo com a Administração de Segurança Nacional (NNSA), responsável pelo local, o laboratório destina-se à realização de experiências nucleares “subcríticas”, uma prática de longa data destinada a garantir a fiabilidade das armas do atual arsenal. “Em experiências subcríticas, os altos explosivos químicos geram altas pressões, que são aplicadas a materiais de armas nucleares, como o plutónio. A configuração e as quantidades de explosivos e materiais nucleares são tais que não ocorrerá uma explosão nuclear”, garantiu a NNSA.






