Partidos conservadores e de extrema-direita reforçam no norte da Europa (e não só). Especialistas alertam para ‘contaminação’ da realidade à política nacional

“É um fenómeno que veio ocupar um espaço que tradicionalmente se dizia da moderação social-democrata ou centrista”, explica à Executive Digest José Adelino Maltez, investigador de ciência política, que aponta alguns motivos.

Pedro Gonçalves
Abril 10, 2023
9:15

Em 2021, todos os países do norte da Europa eram liderados por governos sociais-democratas, a primeira vez que acontecia em 20 anos, derrubando o domínio conservador. Volvido um ano e meio, a situação reverteu-se e verifica-se uma mudança no tradicional bastião da social-democracia europeia. O motivo? O crescimento dos partidos conservadores e dos movimentos de extrema-direita, que colocam, segundo especialistas ouvidos pela Executive Digest, o centro-direita em cheque e perante um possível colapso.
O caso mais recente é o da Finlândia, em que os conservadores e o Partido dos Finlandeses, de extrema-direita saíram vencedores e conseguiram derrubar o Governo social-democrata, liderado por Sanna Marina, que estava no poder há pouco mais de três anos. Nos últimos seis meses contam-se também os casos da Suécia e da Dinamarca, que viraram à direita.

António Costa Pinto, politólogo e professor universitário, em entrevista à Executive Digest, desvaloriza a janela temporal, e destaca que já se verifica há alguns anos uma vaga de crescimento eleitoral e político dos partidos de direita radical populista, alguns que provêm da extrema-direita, como no caso da Suécia, “que provém do neo-fascismo”, mas outros que não, como o Vox espanhol.



“É um fenómeno que veio ocupar um espaço que tradicionalmente se dizia da moderação social-democrata ou centrista”, explica à Executive Digest José Adelino Maltez, investigador de ciência política, que aponta alguns motivos.

Fatores que explicam uma “vaga homogénea”
“São reações contra políticas sobretudo nórdicas de grande acolhimento de imigrantes e concessão de direitos e de liberdades a movimentação política dos mesmos imigrantes. O que é tradicional nestes países nórdicos, e que levou a esta tão imediata adesão da Suécia à Nato, depois de protestos na Turquia, sobretudo pela cena da queima do exemplar do Corão. E, mais do que isso, pela cobertura que a política de imigração sueca dá às organizações dos curdos que resistem ao governo de Erdogan”, explica o professor universitário.

Costa Pinto enumera mais fatores que contribuem para o reforço dos movimentos de extrema-direita no norte da Europa (e não só).

“Há alguns mais ou menos unificadores, como a imigração, mais nos países nórdicos da UE, o euroceticismo em relação à federalização da europa. Muito embora alguns fatores sejam genéricos, verifica-se a tendência para um maior nacionalismo, para um maior protecionismo, para uma maior mobilização de dinâmicas identitárias que há, e os estrangeiros associados à imigração, legal ou clandestina, numa vaga geral e homogénea”, explica o politólogo. “O populismo de direita radical português não joga a carta anti União Europeia, porque sabe que não é popular. Não é o mesmo na Dinamarca ou na Suécia”, exemplifica o professor universitário.

“Na Dinamarca um dos temas era aquilo a que se chama o egoísmo do Estado social, ou seja, a ameaça que a imigração poderia representar para a diminuição das boas condições de vida que são dadas pelo Estado social, e mesmo por um sistema generoso de pensões que marca muito os países nórdicos. Esse não é o tema de ascenso da direita radical em Portugal, o ‘vão-nos roubar as pensões’, ainda não chegou cá, não é essa a perspetiva”, continua Costa Pinto.

Outro aspeto destacado pelos especialistas em política ouvidos pela Executive Digest é a crise da representação bipartidária, que sempre marcou os países do norte da Europa.

“Praticamente desde o pós-guerra, tinham dois grandes partidos, conservadores e sociais-democratas, que hegemonizavam a representação política, muitas vezes em aliança. O aparecimento e crescimento desses partidos [de extrema-direita] também representa a crise de representação desses partidos hegemónicos do centro-direita e centro-esquerda, e de alguma implosão desses sistemas partidários”, adianta António Costa Pinto.

Ampliação “já está presente” em toda a Europa e fenómeno “não é efémero”, avisam especialistas
Questionados sobre a possibilidade de se verificar um alastramento do fenómeno, ambos são perentórios: já se verifica, com maior ou menor expressão em toda a Europa.

“A ampliação já está presente. Em Itália, os partidos de direita radical populista estão neste momento no poder. Em França a senhora Le Pen representa um desafio eleitoral muito significativo. Passaram a ser unidades de conta fundamentalmente para os partidos de centro-direita, que perderam a hegemonia sobre o sistema político”, explica Costa Pinto.

Já Adelino Maltez diz que “a cada roca, o seu fuso”, e exemplifica que “o modelo do Chega de Ventura não é equiparável ao francês, nem aos do norte da Europa, e que as “extremas-direitas vão-se manifestando conforme os sítios e as circunstâncias”. “Que aparece em toda a Europa com força, é inequívoco”, sumariza.

Olhando ao caso português, o professor universitário continua dizendo que “o Chega é um facto, com um líder mediático e parlamentar, e sem uma notável equipa de apoio, mas que não corresponde a um movimento de elites que o enriqueça”. “Tem esse defeito, de partido demasiado agarrado ao êxito mediático do líder”, explica Maltez, que considera que o crescimento deste tipo de movimentos na Europa “não é efémero”.

Sobre os efeitos que o crescimento da extrema-direita terá na política e relações internacionais, as opiniões são mais divergentes.

José Adelino Maltez distingue entre isolacionismo e soberanismo, que individualmente “não são conceitos que se adequem a esta leitura”, mas aponta, por outro lado, uma “solidariedade entre os movimentos da extrema-direita. que estão mais unidos do que estavam, e que criam uma espécie de paradoxo, um soberanismo internacionalista”.

Já António Costa Pinto, exemplifica com outras consequências já verificadas. “Temos hoje em dia já dois partidos da mesma família política no poder, um deu origem internamente ao regime de autoritarismo competitivo, no caso da Hungria, o outro deu origem a entorses e tensões muito significativas ao regime democrático, no que toca à autonomia judicial, que é o caso da Polónia. Sobre o ponto de vista da UE, não há dúvida que esses partidos introduzem dinâmicas soberanistas e dinâmicas de divergência no quadro da UE”, adianta o especialista em política.

O quadro pinta-se com tons mais complexos perante a realidade da guerra na Ucrânia. “O panorama é diverso, porque enquanto na Suécia e na Finlândia podem participar na coligação que leva ao abandono da neutralidade destes países, e a adesão à Nato, na Polónia leva a uma desconfiança em relação à Rússia, e, portanto, a um apoio no quadro da UE, no quadro da Nato. Na Hungria levou a uma atitude mais cética e até, no passado, mais próxima de Moscovo”, avisa Costa Pinto, alertando que, se os partidos de extrema-direita dominassem a UE, ou um núcleo significativo de países da UE, “claro que isso teria um impacto importante” numa perspetiva de isolacionismo.

PSD em risco? Até agora “não dá sinais”, mas as eleições podem mudar radicalmente o jogo
Sobre uma eventual ‘contaminação’ para a realidade da política nacional, António Costa Pinto diz que o futuro panorama nacional é difícil de prever.

“A única coisa que sabemos é que, no passado, em algumas democracias europeias, muitos destes dilemas situaram-se à esquerda do arco político, e é agora um desafio para os partidos socialistas e sociais-democratas, que chegaram mesmo a colapsar. A dinâmica hoje representa fundamentalmente um desafio para os partidos de centro-direita. No caso português, até agora, não há sinais de que o principal partido de centro-direita, o PSD, colapse em termos eleitorais perante a direita radical populista do Chega. Mas em França por exemplo, é um desafio que não está resolvido…”, ilustra Costa Pinto.

O investigador afasta que “neste momento” o PSD possa colapsar perante o crescimento do Chega nas sondagens, afirmando-se cada vez com mais força como terceira força política nacional, mas avisa para o dilema, vivido em muitos países da Europa, “do acordo e da realização até de governos de coligação com esses partidos [de extrema-direita]”.

Quanto à possibilidade de o Chega vir a integrar um Governo, coligado com o PSD, Costa Pinto diz que “tudo depende dos resultados eleitorais” que venham a ser verificados.

“Os modelos podem ser diversificados, quer de um lado quer do outro. Tanto pode ser do interesse do Chega a participação, como pode ser continuar o modelo de protesto, para crescer eleitoralmente. Depende da estratégia política de cada partido. Poderá ser do interesse do PSD e do Chega encontrar uma forma de acordo, poderá não ser. Tudo depende dos resultados eleitorais, mesmo”, termina o especialista em entrevista à Executive Digest.

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