Guerra na Ucrânia é ‘tubo de ensaio’ de novas armas: Drones autónomos de IA em campos de batalha causam alarme entre ativistas

O mercado global de armas letais habilitadas para IA está a crescer rapidamente, passando de quase 10,83 mil milhões de euros este ano para uma expectativa de 27,06 mil milhões até ao final da década, segundo a ‘Allied Market Research’

Francisco Laranjeira

As imagens não mentem: um drone carregado de explosivos estava ‘como um peixe morto’, de barriga para cima, nas ruas de Kiev. Caiu sem que a sua carga mortal detonasse, talvez por mau funcionamento ou por ter sido derrubado pelas forças ucranianas. As fotos do drone tornaram-se virais nas redes sociais e foi identificado por especialistas em armas como um ‘drone kamikaze’ KUB-BLA, feito pela Zala Aero, do fabricante de armas russo Kalashnikov.

O operador do drone, monitorizando de forma remota uma transmissão de vídeo, pode esperar que soldados inimigos ou um tanque surjam. Em alguns casos, os drones são equipas com software de Inteligência Artificial (IA) que permite cassar determinados tipos de alvo com base em imagens alimentadas nos seus sistemas de bordo. Em ambos os casos, uma vez visto o inimigo, o drone mergulha de nariz e explode.

A guerra na Ucrânia tornou-se um campo de provas para munições cada vez mais sofisticadas, o que tem levantado o alarme entre ativistas de direitos humanos, que temem a tendência de ‘robôs assassinos’ no campo de batalha – armas controladas pela inteligência artificial que matam pessoas de forma autónoma sem uma decisão de um humano.

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Os militares de todo o mundo estão de olho na tecnologia à medida que esta melhora e o seu custo diminui – estes pequenos drones semiautónomos (como a ‘Switchblade’) são uma fração de preço de um drone Predator, que pode custar dezenas de milhões de dólares, e não exigem um piloto experiente no controlo remoto. Com um pouco de treino, soldados de infantaria podem operar estas novas armas.

O mercado global de armas letais habilitadas para IA está a crescer rapidamente, passando de quase 10,83 mil milhões de euros este ano para uma expectativa de 27,06 mil milhões até ao final da década, segundo a ‘Allied Market Research’. Só nos EUA, os gastos anuais com este tipo de armamento totalizam atualmente 523,23 milhões de euros e vão subir para 902,12 mil milhões até ao final da década.

A procura por estas armas aumentou em 2020, quando eclodiu a guerra entre a Arménia e o Azerbaijão, com estes últimos a utilizar drones avançados e munições ‘vagabundas’ para dizimar o maior arsenal de tanques e artilharia da Arménia, contribuindo para uma vitória decisiva, explicou Dagan Lev Ari, diretor internacional de vendas e marketing da UVision, uma empresa de defesa israelita. “Isso fez com que muitos países se interessassem”, apontou. A guerra na Ucrânia acelerou ainda mais a procura, acrescentou. “De repente, as pessoas veem que uma guerra na Europa é possível, e os orçamentos de defesa estão a aumentar.”

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Embora menos caros do que certas armas, não são baratas. Por exemplo, cada ‘Switchblade’ custa cerca de 63 mil euros. Os EUA vão enviar 100 ‘Switchblades’ para a Ucrânia, para complementar a frota existente de drones Bayraktar TB2 fabricados na Turquia, que podem descolar, pousar e navegar de forma autónoma mas precisam de um operador humano para encontrar alvos e dar a ordem de lançar os mísseis ou bombas que carregam.

As Nações Unidas têm desenvolvido esforços para decretar restrições ao desenvolvimento e venda de armas autónomas letais, embora ainda sem fumo branco. Cerca de 66 países favorecem a proibição mas tem de haver consenso e EUA, Reino Unido, Rússia, Israel e Índia opõem-se a qualquer restrição. A China mostrou abertura para apoiar a proibição mas só com um tratado internacional.

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