Ucrânia: a história de um sobrevivente de Mariupol, o “mais sombrio dos infernos”

Andrei Marusov lembrou ao jornal ‘Politico’ a vida na cidade arrasada pelo exército russo e como enfrentou a morte em duas ocasiões

Francisco Laranjeira

Andrei Marusov, um morador de 50 anos da cidade de Mariupol, no sul da Ucrânia, quase foi morto duas vezes desde que a Rússia invadiu a Ucrânia. Nas primeiras horas de 12 de março, um míssil reduziu a escombros os dois andares superiores do edifício residencial de nove andares de Marusov. “Dez metros abaixo, não estaria aqui a falar consigo agora”, explicou, ao telefone, em declarações ao jornal ‘Politico’.

A cidade, com uma população pré-guerra de mais de 400 mil habitantes, foi completamente cercada por tropas russas desde o início de março. Poucos dias depois, Mariupol estava sem eletricidade, água canalizada, aquecimento e gás. As redes móveis foram interrompidas e diversos bairros tornaram-se campos de batalha. “As pessoas, incluindo eu, colocaram baldes debaixo das calhas para recolher água da chuva. Quando caía a neve, era recolhida e derretida em fogueiras”, recordou Marusov.

Quando a eletricidade foi cortada, quase todas as lojas fecharam. “Os saques começaram depois de dois ou três dias. Quando as pessoas começaram a roubar as farmácias, foi um golpe catastrófico. Cerca de um terço da população da cidade são reformados e o acesso a medicamentos é uma questão de vida ou morte.” A situação na cidade está a tornar-se “cada vez mais um pesadelo”, explicou o ucraniano. “Os russos parecem ter destruído o nosso fraco sistema de defesa aérea e começaram a bombardear toda a cidade impunemente.” “Existem abrigos mas pode-se morrer cinco vez sob as bombas antes de chegar a um”, referiu o antigo chefe da unidade ucraniana da agência global anticorrupção ‘Transparência Internacional’.

As autoridades ucranianas não conseguiram fazer com que as tropas russas concordassem com corredores humanitários para evacuar civis e os moradores foram forçados a fugir nos seus veículos ou a pé, auxiliados por voluntários. Segundo Pavlo Kyrylenko, governador da região de Donetsk, cerca de 50 mil pessoas foram resgatadas e transferidas para a cidade de Zaporizhia, controlada por tropas ucranianas, graças a esses esforços.

Quando o gás foi desligado, as pessoas começaram a cozinhar em fogueiras nos seus pátios. “Era uma cena surrealista, como se a cidade inteira estivesse a fazer um piquenique. Após um ou dois dias, tornou-se uma tragédia. As pessoas cozinhavam nas escadas e derrubavam árvores em parques públicos para lenha”, lembrou Marusov. A situação humanitária foi agravada pelo clima excecionalmente frio, com temperaturas a atingir os 15 graus negativos.

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Na última sexta-feira, o conselho da cidade de Mariupol referiu que cerca de 300 pessoas foram mortas no teatro da cidade, onde centenas de pessoas estavam abrigados. “Até ao fim, é difícil acreditar nesse horror. Queremos acreditar que todos conseguiram escapar”, leu-se no comunicado do conselho. “Mas as palavras daqueles que estavam dentro do prédio no momento deste ato terrorista dizem o contrário.” Segundo Marusov, o edifício serviu de abrigo para tantas pessoas porque “todos disseram que se houver uma evacuação será do teatro pois é um ponto-chave no centro da cidade. Muitas mulheres e crianças atravessaram a cidade para chegar lá. Havia um grande porão e um foyer, espaço suficiente para se esconder.”

De acordo com as últimas estatísticas, que são de há uma semana e meia, mais de 2.300 pessoas foram mortas na cidade. Mas os números reais provavelmente serão muito piores. “Há muito mais vítimas”, apontou Pavlo Kyrylenko. “Para saber quantos, precisamos de um momento de silêncio, dar espaço para os serviços funerários funcionarem e possam recolher os corpos. Neste momento, nem é possível retirar os cadáveres das ruas e dar-lhes enterros adequados. A situação na cidade é o mais sombrio dos infernos”, acrescentou o governador.

A segunda vez que Marusov quase foi morto aconteceu dois dias depois do ataque aéreo que atingiu seu prédio. “As duas primeiras entradas do meu prédio estavam em fogo e fui ver se alastraria até à minha entrada”, lembrou. “As tropas russas estavam lá. Fui detido, revistado, e encontraram o meu smartphone com fotos da destruição da cidade e um registo da entrada de uma das primeiras colunas russas no nosso distrito.” Esperou várias horas com as mãos amarradas e o soldado que o guardava perguntou à polícia militar o que faria. “O oficial disse: ‘Despacha-o’. Isso significava que seria baleado.”

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“O soldado levou-me embora, sentia um frio na espinha. Ao fim de 100 metros, dei conta: ‘Estou a ser levado para uma execução.’ No entanto, o soldado não cumpriu a ordem e levou Marusov para o porão de uma casa vizinha, onde já havia civis abrigados das bombas. “Decidi deixar Mariupol ou seria morto lá.”

A estrada para Zaporizhia, a 230 quilômetros de Mariupol, levou Marusov a três dias de caminhada e boleias. Foi forçado a parar em dezenas de postos de controlo russos e teve de esperar o fim do toque de recolher obrigatório para poder viajar. Passou noites à beira da estrada com temperaturas abaixo de zero. Na primeira cidade que visitou fora do cerco russo de Mariupol, Nikolske, viu o autocarro que esperava para evacuar as pessoas para as cidades russas de Rostov-on-Don e Taganrog. No entanto, Marusov estava determinado a alcançar os territórios sob o controlo do governo ucraniano.

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