O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, deu uma entrevista de 90 minutos no Zoom, a quatro jornalistas da Rússia. Horas depois, o Kremlin notificou a imprensa russa “da necessidade de se abster de publicar a entrevista”, avança o ‘New York Times’.
Os jornalistas foram Ivan Kolpakov, editor do Meduza, um site de notícias em russo com sede na Letónia; Vladimir Solovyov, repórter do Kommersant, um jornal diário de Moscovo; Mikhail Zygar, um jornalista russo independente que fugiu para Berlim após o início da guerra; e Tikhon Dzyadko, o editor do canal de televisão independente temporariamente fechado TV Rain.
Após terminarem a entrevista, os jornalistas publicaram informações sobre o assunto nas redes sociais, prometendo que em breve a publicariam na íntegra.
Várias horas depois, adianta o jornal, o regulador russo de telecomunicações, Roskomnadzor, divulgou um comunicado a instruir os meios de comunicação russos a não publicar a entrevista e a alertar que um inquérito tinha sido aberto contra os jornalistas envolvidos para “determinar a sua responsabilidade”.
Mesmo para os padrões da aplicação da lei arbitrária da Rússia contemporânea, a declaração foi notável, não oferecendo nenhum pretexto legal para justificar a ordem de não publicar a entrevista.
Mas na esteira da lei assinada por Putin no início deste mês – potencialmente a punir reportagens sobre a invasão da Ucrânia que se desviam da narrativa do Kremlin com até 15 anos de prisão – a diretiva do governo teve um impacto.
O Novaya Gazeta, o jornal independente cujo editor, Dmitri A. Muratov, dividiu o Prémio Nobel da Paz no ano passado, decidiu não publicar a entrevista. “Fomos obrigados a não publicar”, disse o responsável, observando que o seu jornal estava sediado na Rússia e estava sob a jurisdição da lei russa.
O Kommersant, desde o início desta segunda-feira em Moscovo, também não tinha publicado a entrevista no seu site. Mas a publicação de Kolpakov, Meduza, assim como Dzyadko e Zygar, todos agora fora da Rússia, publicaram, tanto em forma de texto como no YouTube.
Os vídeos da entrevista foram vistos mais de um milhão de vezes poucas horas depois de serem publicados, oferecendo aos russos uma imagem muito diferente da guerra do que eles veem diariamente nas suas televisões.
“Era muito importante para nós publicar, para que ele pudesse dirigir-se ao público russo”, disse Zygar ao ‘NYT’, sobre Zelensky. “Para ele, ao que parece, isso também foi importante” acrescentou.
Na entrevista, Zelensky ofereceu uma descrição gráfica do que alegou ser o desrespeito do Kremlin pelas vidas ucranianas e russas, a ponto, disse, de o exército russo ter demorado a recolher os corpos de seus soldados mortos.
Zelensky geralmente fala ucraniano em público – a língua oficial do seu país – mas é um falante nativo de russo, e mudou repetidamente para esse idioma nos vídeos que publica nas redes sociais, para encorajar os críticos de Putin dentro da Rússia.
Contudo, a entrevista de domingo marcou a primeira vez desde o início da guerra que Zelensky conversou longamente com jornalistas russos, no seu idioma.
O líder ucraniano culpou ainda Putin por fabricar a inimizade entre a Rússia e a Ucrânia, sublinhando que a guerra teve o efeito oposto do que Putin aparentemente planeou – marcando uma divisão definitiva entre os povos russo e ucraniano, em vez de reuni-los de alguma forma.
“Isto não é simplesmente uma guerra, é muito pior”, disse Zelensky. “Uma divisão global, histórica e cultural aconteceu este mês”, lamentou.
O responsável também acusou o governo russo de levar à força mais de duas mil crianças de Mariupol, dizendo que “a sua localização é desconhecida”.













