“Estamos a voltar para a URSS”: longas filas de compradores russos por produtos básicos à medida que as sanções fazem efeito

Diversos vídeos partilhados nas redes sociais têm mostrado alguma violência entre os consumidores russos por açúcar em mercados de outras cidades da Rússia, enquanto as autoridades sustentam que a escassez é parte de uma crise artificial

Francisco Laranjeira

A população russa tem ‘protagonizado’ um verdadeiro regresso ao passado, numa corrida aos produtos básicos russos que fez lembrar os receios de que a invasão do Kremlin na Ucrânia poderá levar a um retrocesso virtual à escassez ou a filas intermináveis, a lembrar os tempos da URSS.

Sacos de açúcar e trigo sarraceno começaram a desaparecer dos mercados locais no início de março, apenas uma semana depois de a Rússia ter lançado a sua invasão da Ucrânia. E quando o gabinete do autarca local anunciou que iria realizar mercados especiais para as pessoas comprarem os produtos básicos na última semana, houve centenas de russos que compareceram.

“As pessoas estão a partilhar dicas sobre como conseguir açúcar. Isto é loucura”, garantiu Viktor Nazarov, de acordo com uma publicação do jornal inglês ‘The Guardian’. “É triste e engraçado. Parece que há um mês estava tudo bem e agora estamos a falar sobre a década de 1990 novamente, ao comprar produtos porque temos medo que desapareçam.”

Diversos vídeos partilhados nas redes sociais têm mostrado alguma violência entre os consumidores russos por açúcar em mercados de outras cidades da Rússia, enquanto as autoridades sustentam que a escassez é parte de uma crise artificial.

“O que está a acontecer com o açúcar hoje visa criar um clima de pânico na sociedade”, garantiu o governador da região russa de Omsk.

A escassez repentina é uma primeira amostra do que será um ano difícil para a Rússia, marcado por uma enorme contração económica, alta inflação e um corte sem precedentes do mundo para uma economia globalizada. “Acho que estamos a voltar constantemente para a URSS”, disse Elina Ribakova, vice-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais, indicando que o Governo russo provavelmente vai continuar a fechar-se para a economia mundial. “Não estou a ver isto como um choque temporário e depois voltaremos à democracia liberal e à reintegração ao mundo, a menos que haja uma mudança de Governo.”

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Pelo aumento no preço dos bens básicos, o Governo culpou a compra de pânico e os especuladores, dizendo que há oferta mais do que suficiente para satisfazer a procura. “Como em 2020, quero tranquilizar os nossos cidadãos agora: estamos abastecidos totalmente de açúcar e trigo sarraceno. Não há necessidade de entrar em pânico e comprar esses bens – há o suficiente para todos”, disse Viktoria Abramchenko, vice-primeira-ministra russa.

Mais preocupante: medicamentos como a insulina começaram a desaparecer das prateleiras das farmácias. Algumas pesquisas indicam que os médicos russos estão a enfrentar escassez de mais de 80 medicamentos nas farmácias, incluindo insulina e um popular medicamento infantil anti-inflamatório. Mais uma vez, as autoridades russas culparam os compradores de pânico, observando que a maioria das empresas farmacêuticas ocidentais disse que não limitará as remessas de medicamentos essenciais para a Rússia.

Conforme a economia russa contrai, a inflação deve chegar a 20% este ano, apontou Ribakova, o que, para os russos comuns, quer dizer “pobreza”.

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