Os socialistas do S&D no Parlamento Europeu (PE) vivem em pleno clima de desconfiança para com os colegas, assistentes e assessores, temendo novas revelações no âmbito do escândalo de corrupção Qatargate que possa envolver novos nomes dentro do partido.
As divisões geográficas dentro do grupo parlamentar, o segundo maior do PE, estão a ser ampliadas pela desconfiança e desacordo no âmbito das revelações que vieram a público e que envolvem vários membros (entretanto afastados) e ex-membros do S&D. Se alguns tentam defender os colegas implicados, outros reclamam a forma como a liderança do partido lidou durante meses com várias preocupações e alertas sobre a ex-vice-presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, indicada pelo grupo, e que acabou detida no âmbito da investigação belga ao esquema de corrupção.
Publicamente os socialistas europeus têm mostrado união, com a líder do grupo parlamentar Iratxe García a pedir uma resposta unificada, a propor uma reforma das regras de ética e a lançar uma investigação interna sem abrir espaço para ser desafiada na liderança. No entanto, à medida que o centro-esquerda do parlamento Europeu prepara a campanha para as próximas Eleições Europeias (em 2024), e a forma como voltar a ganhar a confiança dos eleitores, a desconfiança interna entre membros está a aumentar.
“Sinto-me traído por estas pessoas, que são colegas do nosso grupo político. Do que me diz respeito, todos somos vítimas políticas, e espero que consigamos trazer a verdade a público”, aponta Mohammed Chahim, eurodeputado socialista dos Países Baixos, ao Político.
No grupo partidário, o sentimento de traição pessoal cruza-se com o medo de que as ligações do partido à corrupção revelada possam esmagar e deitar por terra as perspetivas de uma eventual vitória no próximo sufrágio.
Os socialistas do Parlamento Europeu esperavam uma possível conquista relativamente simples, alavancada pela subido ao poder de Olaf Scholz na Alemanha e a grande popularidade da finlandesa Sanna Marin na Europa, mas as revelações de entregas de malas de dinheiro, a troco da favores e influência nas decisões tomadas pelos políticos, prometem dificultar um triunfo nas próximas eleições no organismo da União Europeia.
“Não tínhamos qualquer conhecimento do que se estava a passar”, garantiu a líder parlamentar dos socialistas no PE, prometendo que o inquérito interno aberto vai apurar o que se passou. “Temos que deixas as pessoas responsáveis pela investigação trabalharem”, defendeu.
“As revelações do Qatargate foram um terrível choque para o staff do S&D e para os deputados. Muitos sentem-se traídos, vítimas de abuso de confiança. Qualquer pessoa que tenha sido vítima de criminoso sabe que demora a ultrapassar uma experiência como esta”, comenta um porta-voz dos socialistas europeus.
Acresce que o sentimento de desconfiança levou o partido a tomar medidas imediatas, ainda antes do processo judicial se desenvolver mais. Eva Kaili foi prontamente expulsa do partido e a liderança do grupo partidário terá pressionado todos os que estavam diretamente ligados aos envolvidos no escândalo, ou nos temas relacionados com as revelações do Qatargate, para que fossem afastados dos trabalhos de legislação.
Com o decorrer da investigação das autoridades belgas, foram surgindo mais nomes, e todos ligados ao S&D: Andrea Cozzolino e Marc Tarabella foram também detidos e acabaram expulsos do partido. As últimas revelações, que puseram as socialistas Maria Arena e Alessandra Moretti na mira das autoridades, sendo referenciadas em documentos, não ajudaram o partido a ‘descolar-se’ do escândalo de corrupção.













