Mesmo que, com um atraso considerável, o 5G será brevemente uma realidade no nosso país. Como podem as empresas aproveitar esta nova tecnologia?
A quinta geração móvel está finalmente a chegar, e, com ela, um conjunto de oportunidades para as empresas se modernizarem e digitalizarem. Depois de um período de pandemia, que obrigou à aceleração da transformação das empresas e a muitas mudanças nos hábitos dos consumidores, vem aí um mundo com mais conectividade e experiências inéditas em termos tecnológicos. Pedro Marques Tavares, partner da Deloitte, falou com a Executive IT sobre as novidades trazidas pelo 5G. Muito se tem falado sobre a aceleração da digitalização desde o início da pandemia.
Como vamos evoluir a partir daqui? A partir deste momento, iremos evoluir na exacta medida em que tivermos meca- | 5 | G | como oportunidade para as empresas O 5G nismos e tecnologias adequadas para continuarmos a fazer aquilo que já fizemos em contexto pandémico. Evoluímos muito nestes últimos meses, porque existia essa necessidade; em particular, tornou-se necessário trabalhar em contexto remoto, e com isso fazer uma utilização massiva das tecnologias que nos davam conectividade aos sistemas. Conseguimos fazer muito em contexto de digitalização, nomeadamente assegurar a conectividade das pessoas aos sistemas e das pessoas às pessoas, porque tínhamos tecnologias apropriadas: o 4G e o Wi-Fi, que muitas vezes é esquecido neste tema.
Neste momento, já estamos na versão 6 do Wi-Fi e encontramo-nos na transição do 4G para o 5G. Assim, se a digitalização vai evoluir na medida em que houver tecnologia para tal, a questão está em saber quando é que essa tecnologia chega. Em Portugal, acredito que o leilão do 5G venha a terminar em breve, mas o que tem vindo a acontecer é um atraso muito substancial do lançamento da quinta geração de conectividade móvel em Portugal, quando comparado com os outros países europeus e com o resto do mundo. O nosso atraso é colossal. Noutras tecnologias já fomos o modelo, hoje somos provavelmente o antimodelo no que diz respeito ao lançamento de uma nova geração móvel. Sobre isso, todos conhecemos as datas: o leilão 5G começou no princípio do ano e já andamos há nove meses com os operadores a envidar espectro, num processo cheio de polémicas… Mas tenho quase a certeza que muito em breve iremos terminar este leilão.
Qual o papel do 5G nas próximas fases de transformação digital das empresas?
O 5G é provavelmente a primeira tecnologia, desde há algum tempo, que embora mude a forma como as pessoas se ligam à internet, está muito mais focada no B2B, ou seja, nas empresas. Esta tecnologia vem endereçar um conjunto de limitações que existiam no 4G e no 3G, e que afectavam bastante aquilo que poderia ser feito no âmbito das empresas. Em causa, novos conceitos que existem nativamente no 5G, como as redes privadas, por exemplo. Assim, a possibilidade das empresas desenharem, montarem e operarem a sua própria rede como mais lhes convém passa a ser uma realidade através do network slicing do 5G.
Outro aspecto, também dirigido às empresas, está relacionado com a capacidade de gestão de milhões de dispositivos IoT (no 4G este número reduzia para alguns milhares). Passamos também a ter uma tecnologia de conectividade que finalmente vem standardizada. Isto permitirá a massificação dos dispositivos IoT nas empresas, onde destaco os exemplos da indústria pesada e do chão de fábrica. Este é um tipo de indústria em que as limitações da tecnologia actual, nomeadamente o 4G e o Wi-Fi, afectam muito o processo de digitalização Com o 5G, abre-se uma porta para que se possa pensar a sério na digitalização do processo fabril e das empresas de indústria pesada, dada esta característica do 5G de gestão de milhões de dispositivos IoT. No que diz respeito ao B2C, a Deloitte fez um estudo onde perguntou a cerca de 15 mil pessoas de várias geografias qual seria a sua atitude perante o 5G: se estava disponível para ser um earlier adopter, se estava renitente, etc.
As médias globais dizem-nos que 7% destas pessoas já têm 5G, 18% dizem que vão mudar assim que a tecnologia estiver disponível, 11% mudarão apenas se tiverem comentários positivos, 26% dizem que eventualmente mudarão e 21% só mudam se houver standardização da tecnologia. Por fim, 16% dos inquiridos não sabem o que é o 5G. Isto significa que 25% estão positivos quanto ao 5G (ou já têm ou aguardam que apareça) e 58% dos inquiridos estão neutros ou negativos. Isto passa-nos a mensagem de que o trabalho de comunicação sobre esta tecnologia, não só em termos de consumo, mas também nas empresas, não está a ser eficaz. Comparando com estudos que realizámos no passado sobre o 4G e 3G, esta é provavelmente a percentagem mais elevada que encontrámos de neutros ou negativos. No 3G, por exemplo, o rácio de disponibilidade para experimentar ultrapassava os 50%.
Será que isso acontece porque os particulares pensam que o 5G é “apenas” mais rápido?
As pessoas que usufruem hoje do 4G na sua plenitude questionam o que poderão fazer mais se tiverem 100 vezes mais velocidade. E provavelmente esse não é um trigger para transitar para o 5G. Se as pessoas pensarem que poderão ter de vir a pagar um pouco mais, o sentimento piora ainda mais.
O que podem as empresas portuguesas aprender a partir dos exemplos de aplicações 5G nos países onde esta tecnologia já está disponível?
As empresas portuguesas terão muito a usufruir do 5G e algumas das potenciais utilizações nem sequer estão implementadas em nenhum país. O 5G é uma tecnologia evolutiva e ainda estamos no primeiro release. Mas, para já, há um conjunto de casos de estudo interessantes que as empresas podem ambicionar usufruir e monetizar. No consumo, destaco a capacidade de termos tecnologias imersivas. Por exemplo, a capacidade de irmos a uma loja e, através de uma app, experimentar peças de vestuário, com uma visão clara de como fica sem ser preciso experimentar de forma física. Já existem muitos casos desta tecnologia.
Por outro lado, as empresas que gerem cidades, nomeadamente do sector público, conseguirão usufruir do 5G em áreas como a gestão de lixos, estacionamento, queixas, tráfego e serviços de segurança, entre muitas outras. Com o 5G, todas estas áreas apresentam melhorias e passa a existir uma maior massificação de dispositivos IoT a implementar esses serviços. Na área de gestão de lixos, por exemplo, hoje existem um ou dois sensores por contentor; com o 5G poderá haver dezenas de sensores por elemento de monitorização, com consumos muito baixos e durabilidades muito altas. Com isto, aumenta- -se a qualidade do serviço e o número de indicadores que se podem extrair dos elementos que estamos a monitorizar. A indústria pesada é outro exemplo onde o 5G fará a diferença. O chão de fábrica é uma área onde há muito existem as mesmas tecnologias, os mesmos processos, as mesmas linhas fabris…
E tudo isto é quase imutável. O 5G vem resolver muitas limitações, sendo possível estar conectado a uma linha fabril e adaptá-la em função de um determinado propósito de negócio. Hoje essa linha pode estar a encher garrafas, e amanhã a empacotá- las. As linhas passam a estar conectadas entre si e tornam-se flexíveis.
Que desafios traz o 5G à cibersegurança, nomeadamente no que respeita à IoT, onde milhares de dispositivos passam a estar conectados?
Essa é uma preocupação que as empresas têm cada vez mais. Em primeiro lugar, porque percebem que os ciberataques não são uma coisa que só acontece nos filmes, e, em segundo, porque estes ataques têm vindo a aumentar bastante. Quando entramos numa tecnologia móvel, este sentimento de insegurança cresce porque não podemos tocar em nada. Não é possível simplesmente desligar um cabo, e por isso perde-se a noção da tangibilidade das coisas.
Além disso, existem muitos mais dispositivos ligados, passando-se de uma arquitectura de one-to-one ou one-to-many para uma de many-to-many. As redes ficam completamente pulverizadas e existem muitos caminhos para chegar a um único dispositivo. Humanamente é impossível de gerir, mas vamos ter máquinas e algoritmos para garantir essa segurança. No caso do 5G, existe uma vantagem, que é o facto de tratar-se de uma tecnologia nativamente desenhada com procedimentos reforçados de cibersegurança e de privacidade. Inclui mecanismos de encriptação exclusivos que não existem no 4G. É claro que estas tecnologias não resolvem o problema por completo e serão precisas outras complementares, mas desde logo se torna mais difícil entrar na rede sem permissão.
A maioria do tecido empresarial português é composto por PME. Estas empresas estão preparadas ou têm meios para investir em 5G?
Na verdade, a esmagadora maioria das abordagens que temos tido, em Portugal e noutras geografias, já não é dos operadores e das big companies, mas sim das empresas de porte médio. São empresas que sempre fizeram tudo da mesma forma e sentem que precisam de evoluir, mas não sabem exactamente como. Querem perceber de que forma estas novas tecnologias lhes podem ser úteis e que casos de estudo se aplicam à sua dimensão média. A quantidade de empresas com estas características que nos questionam tem sido disruptiva, face ao cenário que tivemos no passado. Acredito que se fizéssemos o mesmo estudo já referido anteriormente, não dirigido a pessoas, mas sim a empresas, a percentagem de interessados em migrar para o 5G seria muito maior.
A questão que se coloca é se existe ou não capacidade, por parte destas empresas, de adoptarem o 5G. Diria que, pelo menos, haverá mais capacidade do que há dez anos, aquando do lançamento do 4G. Isto acontece porque os operadores percebem que têm uma tecnologia originalmente desenhada mais para as empresas e não só para o consumo. E, se olharmos para os casos de estudo já lançados pelos operadores em Portugal, todos se dirigem às empresas. Os operadores perceberam que este é um mercado endereçável de forma natural, sem ser preciso fazer soluções à medida, e além disso existem apoios estatais que procuram promover a digitalização das empresas. As PME têm muita vontade de aproveitar estes apoios no sentido de modernizar e digitalizar as suas operações.
Qual o papel da Deloitte enquanto consultora neste contexto?
Temos o papel consultivo de ajudar operadores e empresas a perceber que tecnologia é esta, de que forma podem monetizá-la e o de esclarecer as dúvidas que surgem, normalmente relacionadas com segurança da informação e privacidade.
Por que é que nesta altura já se fala de 6G? Em que vai basear-se a 6.ª geração móvel?
O processo de criação desta tecnologia e de levantamento de requisitos desta nova tecnologia já começou, ao abrigo de um programa chamado Hexa-X. Neste programa procura-se definir um blueprint, uma arquitectura base onde todos os outros vão beber e construir em cima. Esse processo já teve início, liderado pela Ericsson e pela Nokia. Estamos na fase de levantamento e sistematização de requisitos, com o lançamento de programas de investigação que procurem desenvolver tecnologias que enderecem esses requisitos. Lá para 2025/26 começará o processo de standardização, para lançar algures em 2030. Os ciclos das tecnologias móveis são de cerca de dez anos e a tendência é que sejam mais curtos. Isto acontece porque que vão sendo descobertas novas necessidades.
Estão a surgir novos valores e visões, como o da sustentabilidade, por exemplo. Questiona- se se as redes 5G serão sustentáveis, durante os próximos dez anos, do ponto de vista da pegada carbónica e do impacte ambiental. Um dos principais requisitos do 6G é precisamente a sustentabilidade. Outro requisito é a cobertura global. Hoje temos redes 5G, mas o mundo tornou-se completamente fluido. Hoje estamos em Portugal, a utilizar a rede 5G de um dos operadores nacionais, mas 24 horas depois podemos estar no outro lado do planeta, onde podem ou não existir acordos de roaming. Esta é uma questão com a qual cada vez menos temos disponibilidade para nos preocuparmos, e a resposta é a cobertura global, com redes móveis terrestres e via satélite.
Por outro lado, um farol do 6G é a perfeita simbiose entre o digital e o nosso próprio corpo. Esta tecnologia vai digitalizar todos os indicadores biométricos para melhorar a saúde das pessoas. Em suma, o 6G começa a virar-se para este tipo de temáticas que já nada têm a ver com a tecnologia “pura e dura”, mas sim com valores mais altos: sustentabilidade, cobertura global e gestão da nossa saúde. O 6G assume também que daqui a 10 anos a cloud esteja completamente massificada, pelo que interessa mais perceber a algoritmia e os serviços que a cloud proporciona em matéria de inteligência artificial. Devido a todos estes aspectos, fala- se mais cedo do 6G e ainda numa fase de implementação do 5G; o mundo mudou e começamos a pensar em valores que o 5G ainda não prevê, e que estão relacionados com o desenvolvimento da sociedade e das pessoas. Um dos use cases relacionados com o 6G é a substituição do conceito de IoT pelo de IoS (Internet of Senses).
Como o 5G já traz a massificação da IoT, começa-se a pensar de que forma se pode utilizar a internet e toda esta tecnologia para ligar emoções. No centro passa a estar o indivíduo e não o smartphone que ele utiliza.











