Da soja aos iPhones: Crise energética deixa cadeias mundiais de abastecimento “a meio gás”

“Se a escassez de eletricidade e os cortes de produção continuarem, as cadeias de abastecimento mundial começam a ficar comprometidas”, alertou Louis Kuijs, economista sénior para a Ásia da Oxford Economics.

Fábio Carvalho da Silva

Dos alimentos à tecnologia, a escassez de gás está a prejudicar a fábrica do mundo, a China.

Neste momento, as linhas de abastecimento do setor naval estão congestionadas. As entregas de roupas e brinquedos estão atrasadas, ameaçando o vigor do Natal e da “Black Friday”.

“Se a escassez de eletricidade e os cortes de produção continuarem, as cadeias de abastecimento mundial começam a ficar comprometidas”, alertou Louis Kuijs, economista sénior para a Ásia da Oxford Economics.

A crise energética também coincide com o início de sua temporada de colheita na China, o que pode levar a um aumento do preço dos alimentos. Há agora temores de que a situação se agrave à medida que a China luta para gerir as culturas de milho, soja, amendoim e algodão.

Em setembro, os preços dos alimentos, em todo o mundo, subiram pelo segundo mês consecutivo para atingir um novo pico, desde há 10 anos, impulsionados sobretudo pela procura de cereais e óleos vegetais, informou, esta quinta-feira, a Organização para a Alimentação e a Agricultura da ONU (com a sigla anglo-saxónica FAO).

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A instituição, com sede em Roma, previu ainda que 2021 bata um nove recorde no que toca à produção mundial de cereais. A organização estima que, até ao final do ano, sejam colhidas 2,800 mil milhões de toneladas, um pouco acima dos 2,788 mil milhões estimados há um mês. A partir de 2022, a FAO estima que este valor desça, mas ainda que se mantenha “num patamar confortável”.

Nas últimas semanas, várias centrais chinesas de gás foram forçadas a fechar ou reduzir a produção, cedendo à pressão dos governos regionais que tentam cumprir as metas de emissões estabelecidas por Pequim. É o caso dos processadores de soja que esmagam grãos para produzir farinha para ração animal e óleo de cozinha.
Os preços dos fertilizantes, um dos elementos mais importantes da agricultura, estão a subir. Para piorar a situação um relatório publicado esta semana pelo Rabobank lança o alerta vermelho para a falta de leite, caso a energia seja interrompida deixando assim as máquinas de ordenha inoperacionais.
Do lado de lá das muralhas da china, os pastores australianos preparam-se para a redução da venda de lá, já que a China cortou em 40% as importações desta matéria-prima, segundo o Australian Broadcasting.
Tecnologia também está a meio gás

O mundo da tecnologia também pode sofrer um impacto dramático, já que a China é a maior base de produção mundial de dispositivos, desde iPhones até consolas de jogos , além de ter grandes centros de montagem para chips semicondutores usados em carros e eletrodomésticos.

Várias empresas já sofreram algumas paralisações na atividade de suas instalações chinesas para cumprir as restrições locais. A Pegatron, uma das principais parceiras da Apple, disse há um mês que já estava tomar medidas face a esta situação, enquanto a ASE Technology Holding, a maior fábrica de chips do mundo, teve que interromper a produção durante vários dias.

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