A discussão sobre a criação de um novo espaço político à direita voltou a ganhar força nos últimos dias, impulsionada por várias figuras ligadas ao universo conservador e social-democrata que afirmam já não se rever nos partidos atualmente representados no Parlamento. Segundo o Expresso, o sentimento de “orfandade política” foi assumido publicamente por diferentes comentadores e antigos responsáveis políticos, que consideram existir um vazio no espaço da direita moderada e conservadora em Portugal.
O debate surgiu após a publicação de vários artigos de opinião que apontam para a existência de um eleitorado descontente com o PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal. Entre as vozes mais críticas está Pedro Gomes Sanches, antigo adjunto de Pedro Passos Coelho, que defende a necessidade de uma “direita popular conservadora” e admite mesmo a hipótese de um novo partido com a designação “Partido Popular Conservador”. Ao Expresso, Gomes Sanches afirmou que os dois maiores partidos portugueses estão “exaustos, clientelares, com casos de corrupção, hesitantes e que partilham da mesma raiz social-democrata”, sustentando que há margem para uma nova alternativa política.
No centro desta reflexão reaparece o nome de Pedro Passos Coelho, apontado por alguns setores como a figura capaz de unir as várias sensibilidades da direita portuguesa. Gomes Sanches considera mesmo que o antigo líder do PSD é “o federador das direitas” e a pessoa com “capital político e moral” suficiente para liderar uma agenda reformista. Apesar disso, reconhece que continua a ser incerta a disponibilidade de Passos Coelho para regressar à política ativa. Ainda assim, o antigo primeiro-ministro tem alimentado especulações devido às recentes intervenções públicas, nas quais comentou a atualidade política e deixou críticas ao Governo da AD.
A possibilidade de um novo projeto político à direita, contudo, não reúne consenso quanto ao posicionamento perante o André Ventura e o Chega. Francisco Mendes da Silva, antigo deputado do CDS e colunista do Público, defende precisamente o contrário: uma nova alternativa que se assuma claramente “anti-Chega”. Na análise citada pelo Expresso, Mendes da Silva considera que existe uma parte significativa do eleitorado de centro-direita que rejeita qualquer aproximação à extrema-direita e que pretende um PSD vencedor, mas sem depender do partido liderado por André Ventura para assegurar soluções de governabilidade.
O antigo dirigente centrista argumenta ainda que os resultados eleitorais recentes demonstraram a existência desse espaço político autónomo, apontando para a transferência de votos da direita para António José Seguro na segunda volta das presidenciais como sinal de resistência a entendimentos com o Chega. Para Francisco Mendes da Silva, a atual fragmentação partidária também alterou as regras tradicionais da política portuguesa, defendendo que já não é necessário alcançar grandes percentagens eleitorais para exercer influência. Na sua perspetiva, um novo partido com cerca de 5% dos votos poderia tornar-se decisivo numa eventual maioria parlamentar à direita, em articulação com PSD e Iniciativa Liberal.
Apesar da crescente agitação no espaço conservador, continua sem existir qualquer movimento formal para a criação de um novo partido. O debate permanece, para já, no plano da reflexão política e mediática, enquanto vários setores aguardam para perceber se Pedro Passos Coelho avançará efetivamente para um regresso político ou se surgirão novas figuras capazes de ocupar o espaço que muitos consideram vazio no atual panorama partidário português.





