O impacto direto do confinamento provocado pela pandemia de covid-19 fez baixar apenas 0,01ºC nas projeções do aumento da temperatura global, dizem as Nações Unidas.
No entanto, de acordo com o relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, uma recuperação da pandemia mais ecológica ainda pode fazer reduzir as emissões de gases de estufa em 25% na próxima década, correspondendo ao objetivo do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura em cerca de 2ºC face aos níveis pré-indústria.
Meses de ruas vazias, sem aviação e uma redução drástica da atividade económica provocaram uma redução de cerca de 7% das emissões de gases de estufa, a maior queda anual alguma vez registada. No entanto, o declínio da temperatura limitou-se a desacelerar a acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, mantendo a Terra numa rota que pode levar ao aquecimento global na ordem dos 3,2ºC no final deste século, mesmo que os países cumpram os compromissos assumidos no Acordo de Paris.
Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, afirmou ao jornal The Guardian que «estamos na direção errada. Tivemos um confinamento, e há quem pense que isso nos deu alguma vantagem. Mas não é o caso. O facto de fecharmos a torneira uma ou duas vezes não faz com que a banheira deixe de estar cheia».
As emissões de gases de estufa subiram 1,4% por ano ao longo da última década, tendo atingido um novo máximo de 59,1 gigatoneladas em 2019. Se este ano se regista uma queda, o confinamento causado pela pandemia é a razão apontada pelas Nações Unidas. A redução de 7% estimada para 2020 é significativamente maior do que aquela registada em 2008-2009, altura que houve uma ligeira desaceleração causada pela crise financeira.
A redução induzida pela pandemia é aproximadamente aquela que teria de ser registada todos os anos, até 2030, para atingir os objetivos do Acordo de Paris, segundo o relatório do ano passado. Fontes oficiais dizem que a mudança provocada pela pandemia foi acidental e temporária, além de envolver demasiado sofrimento para que pudesse ser replicada. Mas o estímulo económico que se seguir pode fazer uma diferença substancial nos esforços pela descarbonização.
As Nações Unidas estimam que seja necessário triplicar as ambições do Acordo de Paris para encaminhar o mundo para o objetivo dos 2ºC. No entanto, até agora, os planos de recuperação económica decepcionam os especialistas. Segundo o relatório, a despesa fiscal da Covid-19 tem dado suporte ou incentivado novos investimentos ricos em carbono e apenas um quarto dos países membros dos G20 destinaram, em outubro, estímulos a medidas para a redução dos gases poluentes.
No entanto, o relatório também aponta os casos que podem melhorar a situação. A China – o maior emissor de do mundo – comprometeu-se a tornar-se neutro em carbono em 2060. Já a UE, Japão, Coreia do Sul e África do Sul ambicionam atingir o mesmo objetivo ainda antes, a meio do século. Também o Reino Unido deu um passo importante ao transpor estas ambições para a lei e promete um corte de 68% das emissões já em 2030 como parte da sua contribuição para o Acordo de Paris.
O relatório diz também que 126 países têm objetivos de neutralizar o dióxido de carbono, o que abrange 51% das emissões de gases de estufa. Se os EUA adotarem um objetivo similar para 2050, como sugere o plano climático do presidente eleito Joe Biden, esta abrangência aumenta para 63%.













