Portugal atingiu em 2025 o valor mais elevado de população residente de sempre, com 11,4 milhões de habitantes, mas esse crescimento esconde desequilíbrios demográficos e regionais cada vez mais marcados. O retrato é traçado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Pordata, no âmbito do Dia Mundial da População, e mostra um país que cresce sobretudo devido à imigração e à maior esperança de vida, mas onde a natalidade permanece em níveis historicamente baixos.
De acordo com os dados divulgados, Portugal completou sete anos consecutivos de crescimento populacional, depois de ter atingido 11.424.031 residentes em 2025, contra 11.387.222 no ano anterior. Em relação a 2015, a população residente aumentou 10,2%, uma subida que não resulta de mais nascimentos, mas sobretudo do contributo da população estrangeira e da longevidade.
O envelhecimento é uma das tendências mais fortes. Em 2025, o país contabilizava 7.346.647 pessoas em idade ativa e 2.665.777 pessoas com 65 ou mais anos, o que corresponde a apenas 2,76 pessoas em idade ativa por cada idoso. Em apenas um ano, a população ativa cresceu 0,3%, enquanto a população idosa aumentou 1,6%, ou seja, a um ritmo cerca de cinco vezes superior.
Portugal é atualmente o terceiro país mais envelhecido da União Europeia, com 182 idosos por cada 100 jovens. Só Itália, com 208 idosos por cada 100 jovens, apresenta um valor mais elevado entre os dados destacados. A Irlanda surge no extremo oposto, com 85 idosos por cada 100 jovens. Desde 2001, a proporção de crianças e jovens até aos 15 anos em Portugal caiu de 16,3% para 12,6%, enquanto a população com 65 ou mais anos subiu de 16,3% para 23%.
O retrato regional revela fortes assimetrias. A região Centro apresenta o menor rácio nacional, com apenas 2,24 pessoas em idade ativa por cada idoso, seguida do Alentejo, com 2,38. No Alentejo, a população em idade ativa já começou mesmo a diminuir, tendo recuado 0,4% em relação a 2024.
Em sentido contrário, a Península de Setúbal e a Grande Lisboa destacam-se pela capacidade de atração populacional. Desde 2015, a população total aumentou 19,1% na Península de Setúbal e 18,3% na Grande Lisboa. Estas regiões cresceram sobretudo graças ao aumento da população entre os 15 e os 64 anos, que subiu 21,6% em Setúbal e 23% na Grande Lisboa. Foram também as únicas regiões onde a população ativa conseguiu acompanhar ou superar o crescimento da população idosa.
No Norte, a população ativa está praticamente estagnada. A região mais populosa do país registou um crescimento de apenas 0,03% neste grupo etário em relação a 2024 e de 0,7% desde 2015. No mesmo período, a população idosa no Norte aumentou 31%. Nas regiões autónomas, o contraste também é acentuado: desde 2015, a população em idade ativa caiu 8,7% nos Açores e 3% na Madeira, enquanto o número de idosos cresceu 26% e 31,2%, respetivamente.
A análise da Pordata aponta ainda para fragilidades na escolarização da população ativa. Portugal é o segundo país da União Europeia, depois de Espanha, com menor escolarização neste grupo: quatro em cada dez pessoas em idade ativa não têm o ensino secundário. Entre os mais jovens, porém, o cenário é diferente. Na faixa dos 25 aos 34 anos, 42,5% já têm ensino superior, um valor próximo da média europeia, de 44,8%.
A imigração assume um papel decisivo no crescimento da população residente. Em 2024, Portugal ultrapassou pela primeira vez a marca de 1,5 milhões de residentes estrangeiros. Entre 2017 e 2021, o número de estrangeiros passou de 388 mil para 748 mil, mas o maior salto ocorreu entre 2021 e 2022, com mais 250 mil residentes estrangeiros, um crescimento de 44%. Depois disso, o ritmo abrandou: 26% em 2023, 14% em 2024 e 4% em 2025.
Dados do Eurostat relativos a 2024 colocam Portugal no 10.º lugar entre os países da União Europeia com maior proporção de população estrangeira. Os residentes estrangeiros representam 13,5% da população, acima da média europeia, de 10%, e acima de países como França, Grécia e Itália.
A esperança média de vida à nascença em Portugal é de 82,5 anos, o que coloca o país na 9.ª posição da União Europeia. Espanha lidera, com 84 anos, seguida da Suécia, com 83,8 anos, e de Itália, com 83,7.
As mudanças demográficas também se refletem nas famílias. Em 2025, Portugal tinha 4,6 milhões de agregados familiares, mais 11,6% do que em 2015. Esta subida resulta sobretudo do aumento de 33% no número de pessoas a viver sozinhas. Atualmente, cerca de 1,18 milhões de pessoas vivem sozinhas, mais 293 mil do que há dez anos.
Entre os idosos, uma em cada quatro pessoas vive sozinha. Nas mulheres com 65 ou mais anos, a proporção sobe para uma em cada três, enquanto nos homens é de uma em cada seis. Ao mesmo tempo, as famílias com crianças perdem peso: em 2025, apenas 25,1% dos agregados familiares em Portugal tinham crianças, menos 5,7 pontos percentuais do que em 2015.
A natalidade mantém-se em mínimos históricos. Em cada uma das metades da década de 60 nasceram em Portugal mais de um milhão de bebés. Desde então, o número de nascimentos tem vindo a diminuir em cada período de cinco anos e, desde a primeira metade da década de 2010, permanece abaixo dos 500 mil.
Nos cinco anos posteriores à pandemia, entre 2021 e 2025, os nados-vivos registados em Portugal foram 2,5% inferiores aos observados nos cinco anos anteriores à Covid-19. O contributo das mães estrangeiras foi determinante para travar uma queda mais acentuada: sem estes nascimentos, a redução teria sido de 15,1%. O peso dos bebés filhos de mães estrangeiras passou de 10% para 21,6% entre os períodos pré e pós-pandemia.
Apenas três das nove regiões NUTS II registaram aumento dos nascimentos: Península de Setúbal, com uma subida de 8%, Oeste e Vale do Tejo, com 4,7%, e Algarve, com 0,8%. Em todas, o saldo teria sido negativo sem o contributo das mães estrangeiras.
A fecundidade continua abaixo do limiar de renovação de gerações. Em 2024, a expectativa de número de filhos por mulher, aos 15 anos, era de 1,4. O indicador mantém-se acima de 1 até aos 28 anos, mas cai rapidamente depois disso, chegando a 0,4 a partir dos 35. A Pordata estima que seis em cada dez mulheres entre os 35 e os 49 anos não venham a ter mais filhos.
O retrato mostra, assim, um país que cresce, mas com bases frágeis: mais população, maior longevidade e imigração decisiva, mas também menos jovens, menos famílias com crianças, natalidade baixa e desequilíbrios territoriais profundos. Para a Fundação Francisco Manuel dos Santos e a Pordata, estes dados tornam visíveis tendências estruturais que serão determinantes para o futuro demográfico, económico e social do país.



















