O Presidente chinês Xi Jinping está a resistir a um possível encontro com o homólogo norte-americano Donald Trump por considerar que o comportamento do mesmo é “imprevisível” e que pode colocar em risco a imagem e prestígio do líder chinês. A revelação é feita pelo jornal Politico, numa altura em que aumentam as tensões entre Washington e Pequim, especialmente no que toca à disputa comercial e ao controlo de matérias-primas estratégicas.
Segundo a publicação norte-americana, a administração Trump procura desesperadamente restabelecer contactos de alto nível com a China após um breve período de tréguas tarifárias acordado em maio. O ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Rush Doshi, afirmou que Pequim receia colocar Xi Jinping “em risco de um encontro potencialmente embaraçoso ou imprevisível”, numa referência aos recentes episódios diplomáticos tensos protagonizados por Trump com líderes estrangeiros.
Trump, que já tinha anteriormente afirmado nas redes sociais que Xi Jinping era “muito difícil de se negociar”, mostrou-se obcecado com a ideia de conseguir uma chamada telefónica com o homólogo chinês. O Politico, citando uma fonte não identificada, refere que Trump acredita que essa conversa poderá desbloquear as negociações comerciais atualmente estagnadas. No entanto, essa hipótese é considerada pouco provável por especialistas e fontes diplomáticas.
Rush Doshi, que foi diretor-adjunto para a China e Taiwan no Conselho de Segurança Nacional durante a administração Biden, explicou ao mesmo jornal que “a China vê Trump como imprevisível, o que representa riscos reputacionais para Xi Jinping. Não é prática diplomática habitual expor um líder chinês a uma situação potencialmente constrangedora”.
Episódios anteriores reforçam prudência de Pequim
Entre os motivos para a hesitação de Pequim estão os confrontos recentes entre Trump e os presidentes da Ucrânia e da África do Sul. Em fevereiro, uma troca tensa com Volodymyr Zelensky resultou no fracasso de um acordo sobre minerais estratégicos, seguida de críticas públicas de Trump. Já em maio, o presidente norte-americano terá mostrado vídeos que alegavam violência contra agricultores brancos na África do Sul durante uma reunião com Cyril Ramaphosa — alegações desmentidas oficialmente por Pretória.
Estes episódios aumentaram os receios em Pequim de que uma eventual reunião com Xi Jinping possa resultar num momento diplomático embaraçoso, com possíveis consequências internas e externas.
Apesar do acordo de tréguas comerciais alcançado em maio — que envolveu o levantamento temporário de algumas tarifas por 90 dias —, a tensão voltou a subir devido à decisão da China de bloquear exportações de minerais críticos, incluindo terras raras e ímanes industriais. Estes materiais são essenciais para várias indústrias tecnológicas e de defesa nos EUA.
Scott Bessent, Secretário do Tesouro norte-americano, expressou otimismo quanto a uma futura conversa entre os dois líderes, afirmando em entrevista à CBS (Face the Nation, citada pela Reuters): “Estou confiante de que, quando o Presidente Trump e o Presidente do Partido, Xi, falarem ao telefone, tudo será resolvido. Mas o facto de estarem a reter alguns dos produtos que tinham concordado libertar no âmbito do nosso acordo — pode ser uma falha no sistema chinês, ou talvez seja intencional. Veremos depois do telefonema do Presidente com o líder do partido.”
Entretanto, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, reiterou a posição oficial de Pequim: “O princípio e a posição da China no desenvolvimento das relações China-EUA é consistente.”
Trump insiste em tom combativo
Apesar do impasse diplomático, Trump manteve a sua retórica habitual. Numa publicação feita na rede Truth Social na madrugada desta quarta-feira, 4 de junho, escreveu: “Gosto do Presidente XI da China, sempre gostei e sempre gostarei, mas ele é MUITO DURO E EXTREMAMENTE DIFÍCIL DE FAZER UM ACORDO!!!”
Até ao momento, Pequim não indicou qualquer data para a tão aguardada chamada entre os dois presidentes. Com o desmoronar do cessar-fogo comercial e a crescente disputa em torno dos recursos estratégicos, o impasse nas relações sino-americanas promete continuar a dominar a política externa de Trump nas próximas semanas.









