Tiago Castanheira foi recentemente nomeado Chief Financial Officer (CFO) da UNICRE. Entra num contexto de grandes transformações e desafios associados ao sector financeiro e com uma visão direccionada para as novas exigências que o mercado impõe.
Assumiu funções como CFO da UNICRE em Junho deste ano. Quais os grandes desafios que antevê para os próximos tempos?
Após mais de 12 anos de experiência em projectos de auditoria e consultoria no sector financeiro, começo por referir que estou muito entusiasmado com este novo desafio enquanto CFO da UNICRE.
Relativamente aos desafios futuros, e à semelhança do que acontece nas outras áreas, a área financeira está em constante actualização e evolução, na medida em que temos de ter a capacidade de acompanhar as exigências dos mercados e reagir antecipadamente. As incertezas do actual contexto macroeconómico, fortemente influenciado pela inflação crescente, pelo aumento das taxas de juro, pelos impactos da guerra na Ucrânia na economia portuguesa e mundial, e (ainda) os impactos da situação pandémica vivida, vêm incrementar os desafios dos próximos tempos. Neste sentido, será crucial uma maior participação da função financeira na gestão de risco, incluindo uma maior capacidade de antecipação das volatilidades de mercado, adaptando a sua estratégia financeira sempre que necessário e contribuindo activamente na definição do plano estratégico da empresa.
Por outro lado, vivemos continuamente tempos de disrupção pelo que o tema do digital, incluindo Automação Robótica de Processos (Robotic Process Automation ou RPA) e inteligência artificial, data analytics ou até mesmo blockchain, continuará a fazer parte da agenda da função financeira. Adicionalmente, estaremos empenhados em contribuir para a implementação do plano de transformação digital da UNICRE, trabalhando em conjunto com as diferentes áreas.
Relativamente à área de Revenue Assurance, não obstante os resultados bastante positivos já alcançados, temos actualmente um projecto em curso que nos permitirá incrementar, ainda mais, o scope de análise. Também nesta área o digital será um fator crítico de sucesso.
Por último, mas não menos importante, continuaremos focados no cumprimento regulamentar, incluindo o acompanhamento das alterações existentes; na melhoria contínua do ambiente de controlo interno, nomeadamente no processo de preparação e divulgação de informação financeira e não financeira; e ainda nas questões de sustentabilidade, assumindo esta uma posição relevante na nossa estratégia.
Concorda com a ideia de que o papel do CFO nas empresas está a tornar-se ainda mais crítico?
Claramente que sim. Vivemos hoje tempos de rápidas e constantes alterações. Este é um grande desafio para as instituições, seja pela disrupção digital, pelas crises pandémicas ou geopolíticas com impactos significativos nos mercados financeiras. Neste sentido, considero que o CFO deve desempenhar um papel activo nas organizações, preparando as suas equipas para estas circunstâncias e trabalhando em conjunto com as diferentes áreas de cada instituição para a definição da estratégia.
Contrariamente à ideia de que um CFO assume, única e exclusivamente, a responsabilidade referente à produção e análise de informação financeira, actualmente desempenha um papel muito mais dinâmico e estratégico, inclusivamente, na perspectiva operacional do próprio negócio.
A disrupção digital veio também trazer novas exigências ao CFO, com foco em robotics (automatização de processos), inteligência artificial e data analytics. A digitalização não vem apenas simplificar o dia a dia da função financeira, mas também disponibilizar mais e melhor informação para a tomada de decisão. É assim fundamental que o CFO traga estas iniciativas e lidere os diferentes processos de transformação digital.
O CFO deve hoje liderar equipas pluridisciplinares, não apenas focadas nas tradicionais áreas financeiras mas também em questões de digital, regulamentares, fiscais, gestão de liquidez, reporting, planeamento e controlo financeiro, revenue assurance, sustentabilidade, entre outros. Neste sentido, é crucial que o CFO contribua activamente na formação das suas equipas, garantindo que as mesmas têm acesso a um adequado e atempado plano de formação.
Em conclusão, o CFO de hoje deverá ter a capacidade de reagir rapidamente e de forma credível a uma variedade de diferentes assuntos, não apenas internamente mas também com os seus stakeholders, liderar e motivar as suas equipas, trazer a disrupção digital para dentro da função financeira, contribuir activamente para uma adequada gestão do risco, participar activamente na estratégia da instituição, mantendo as suas responsabilidades no processo de preparação e elaboração de informação financeira e contribuindo diretamente para um crescimento sustentável.
Vivemos actualmente num contexto de grandes transformações e também de grande volatilidade. De que forma este cenário influencia o papel e a intervenção do CFO?
Hoje, e mais do que nunca, os recursos humanos procuram perfis altamente versáteis, capazes de se adaptar, rapidamente, a diferentes cenários. No caso do CFO, as caraterísticas relacionadas com a capacidade estratégica e de liderança, seja na tomada de decisões ou na gestão de diferentes pessoas e equipas, acaba por reforçar ainda mais, à nossa função, em específico, estes níveis de responsabilidade.
Passámos, e estamos a passar, por um cenário volátil, mas no qual já conseguimos retirar conclusões positivas e até novas aprendizagens. Por exemplo, na lista de preocupações está a subida das taxas de juro, mesmo estando a empresa financiada e sólida. Apesar desta posição privilegiada, no primeiro semestre de 2022, concluímos positivamente a emissão de um empréstimo obrigacionista no montante de 23 milhões de euros, o que nos permitiu antecipar, em parte, o efeito do aumento das taxas de juro, e verificar uma ótima reacção do mercado à nossa emissão. Por outro lado, estamos a avaliar outras oportunidades, como por exemplo, securitizações de crédito, e continuamente a reavaliar a nossa estratégia de investimento de excedente de liquidez (em activos de elevada liquidez) que nos permitirá também mitigar parcialmente o efeito do aumento das taxas de juro e continuar a incrementar os nossos rácios de liquidez.
Estamos confiantes de que a nossa abordagem, proactiva e preventiva, permitirá contribuir para o crescimento sustentável dos excelentes resultados da UNICRE, que tem distribuído cerca de 90% de dividendos aos seus accionistas.
Perante esta mutação, que novas skills as empresas estão a exigir aos seus CFO que só agora se tornaram mais relevantes?
A experiência na área continua a ser uma das preocupações e um dos principais critérios das empresas na contratação de um novo CFO, sendo que a variedade de experiências, um perfil pluridisciplinar e a vertente internacional são cada vez mais relevantes.
Além dos conhecimentos técnicos e do pensamento crítico, algumas das principais skills exigidas, actualmente, e como consequência das ditas mutações, remetem para a procura de CFO inovadores, com visão estratégica, com capacidade para se adaptar facilmente a diferentes cenários, para tomar decisões, para gerir crises e pessoas, bem como com um maior domínio das tecnologias. Esta última, em particular, na medida em que a tecnologia está cada vez mais presente no nosso dia a dia, seja na forma como nos relacionamos ou trabalhamos.
De que forma o CFO tem hoje influência crítica na estratégia da empresa?
Na medida em que, além de solucionar os problemas tradicionais, o CFO possui um elevado conhecimento da realidade operacional da empresa, tornando-o um elemento essencial nos processos estratégicos. Cada vez mais – e sobretudo num cenário em que a inflação e as tensões geopolíticas estão a trazer desafios às instituições – o CFO deve antecipar e acautelar, sempre que possível, os impactos decorrentes das alterações de mercado, ter a capacidade de encontrar formas alternativas de investimento que permitam manter a robustez da empresa e, por sua vez, manter ou potenciar a trajectória de crescimento da empresa.
Adicionalmente, deve ter em consideração a transição sustentável e respectivo cumprimento dos critérios ESG, na medida em que esta transição potencia mudanças no modelo de gestão e operacional das empresas. É importante que o CFO consiga, por um lado, encontrar investimento sustentável ou que cumpra os critérios ESG (Environmental, Social and Governance) e, por outro, que consiga que estas novas mudanças não impliquem custos adicionais ou, caso implique, que consiga compensar o custo e, assim, manter uma balança sustentável dos fluxos financeiros da empresa.
Para além disso, a preocupação, cada vez mais assente na recolha e interpretação de dados, que têm como objectivo reduzir os riscos para as empresas, atribui, ao novo perfil de CFO, a responsabilidade de se preocupar com todo o tipo de compromissos relacionados com a organização, seja a nível ambiental, social, de governance e de segurança, que contribuam para uma melhoria dos resultados globais.
Vivemos num mundo de dados cada vez mais globalizados e fundamentais para impulsionar as economias digitais. Independentemente da dimensão da organização, uma das principais mudanças nesta área é a dependência destes mesmos dados (sejam dados financeiros estruturados, outros dados estruturados da empresa ou dados de mercado não estruturados) para conseguir realizar as nossas funções e tomar decisões fundamentadas.
Apenas com base nessa recolha é que conseguimos analisar possíveis relações de valor complexo, influenciar o seu impacto, simular potenciais cenários de risco e prever desenvolvimentos relevantes no mercado.
De que forma o novo papel do CFO nas empresas conduz a uma gestão de risco mais eficaz e sustentável e a uma maior resiliência?
O CFO deve ter uma visão estratégica e transversal de todo o negócio e, para isso, é fundamental que consiga prever, antecipadamente, não só os custos e retornos que a empresa pode ter, mas também potenciais riscos e oportunidades que podem impactar aquela que é a previsão dos fluxos financeiros da própria organização. Ao prever estes riscos e oportunidades, consegue, mais facilmente, actuar previamente com o objectivo de mitigar esses mesmos riscos e tornar a empresa mais resiliente.
Para conseguir assegurar a credibilidade desta previsão, e contrariamente ao que acontecia no passado, em que todo o processo de recolha de dados era efectuado de forma manual, actualmente recorremos a ferramentas que permitem implementar processos de automação inteligentes. Além de conseguirmos um maior controlo de todo o processo, e respectiva gestão de risco, conseguimos também acesso a uma maior quantidade de informação. Neste aspecto em concreto, não podemos deixar de reforçar a importância do data analytics, que vem disponibilizar mais e melhor informação para suportar a tomada de decisão.
Como está a tecnologia a transformar o modo de fazer gestão de risco nas empresas?
Numa sociedade cada vez mais digital, dependemos, mais do que nunca, da tecnologia, mais concretamente, no nosso caso, da inteligência artificial e do machine learning, para conseguirmos analisar grandes volumes de dados. A UNICRE trabalha com modelos estatísticos há vários anos e, no caso do machine learning, tem a vantagem de ser mais eficaz no desenvolvimento destes modelos, o que permite um menor impacto ao nível dos custos e ao mesmo tempo aumentar a eficácia dos mesmos.
Voltando a falar de tecnologia e de gestão de risco, não posso deixar de mencionar a importância do data analytics na disponibilização de grandes volumes de informação de forma atempada, resumida e assertiva, que suportam a melhor tomada de decisão. Por outro lado, a automatização de processos permitirá ainda a eliminação de tarefas de menor valor acrescentando, disponibilizando tempo as equipas para um maior foco na gestão de risco e em outras matérias complexas.
Ao nível do sector financeiro, a utilização destas soluções, que permitem retirar insights importantes, facilita o acompanhamento das melhores práticas de mercado, aumentando a competitividade da empresa e permitindo dar uma resposta positiva a um mundo financeiro cada vez mais complexo.
Concorda com a ideia de que nos novos tempos se exige que um CFO seja mais proactivo do que reactivo?
Concordo com a ideia de que um CFO deve ter uma postura mais proactiva do que reactiva, mas não o limitaria apenas aos novos tempos porque, na verdade, essa sempre foi uma das responsabilidades associadas a esta função. Estamos num mundo em constante evolução e a exigência faz parte do nosso dia a dia.
Adicionalmente, é extremamente importante que o CFO lidere as mudanças, dando o exemplo às suas equipas e garantindo que estas têm as condições e formações necessárias para contribuir para uma gestão proactiva. Por último, a actual conjuntura económica, reflectindo uma enorme volatilidade dos mercados, vem reforçar a necessidade de uma gestão mais proactiva do que reactiva.
Quais as grandes tendências de futuro para o cargo de CFO?
Num mundo cada vez mais tecnológico, a transversalidade do CFO será colocada à prova em quatro grandes tendências: na digitalização da área financeira, incluindo data analytics; Robotic Process Automation – a automatização dos processos é uma das principais tendências actuais e para o futuro, uma vez que permite aumentar a eficiência e a produtividade das equipas; análises em tempo real – a área financeira recorrerá a análises sofisticadas e com dados disponibilizados em tempo real; e, ainda, relatórios e visualização de dados – implica investir não só em tecnologia para acelerar a elaboração destes relatórios e respetivas análises, como também em ferramentas de visualização que permitam retirar o máximo de insights, através de dashboards.
No curto prazo, as incertezas do actual contexto macroeconómico e os eventuais impactos financeiros vêm reforçar a importância do foco da função financeira na gestão de risco e no planeamento estratégico das instituições.
Adicionalmente a estas tendências que vão marcar a transversalidade do papel do CFO, de referir, também, o crescente foco nas relações com os stakeholders, incluindo fornecedores, clientes, reguladores e investidores.
Em suma, as grandes disrupções serão a norma no futuro próximo. Para acompanhar esta evolução, as instituições devem desenvolver modelos de negócios sustentáveis com foco nos seus stakeholders; o CFO será, assim, fundamental para equilibrar as necessidades de curto e longo prazo. As skills tecnológicas serão também essenciais, devendo construir equipas multidisciplinares para impulsionar a inovação, promovendo assim tomadas de decisão mais sofisticadas e sustentadas.
Artigo publicado na Revista Risco n.º 26 de Setembro de 2022






