Ucrânia à beira do colapso demográfico: há três mortes por cada nascimento

País está às vésperas do quarto aniversário da invasão russa em grande escala, considerada a guerra mais brutal em solo europeu desde 1945

Francisco Laranjeira
Fevereiro 16, 2026
15:44

Por cada criança nascida na Ucrânia em 2025 morreram três pessoas, repetindo a proporção registada no ano anterior. Os dados, citados pelo jornal espanhol ‘ABC’ com base na plataforma Opendatabot, ilustram a dimensão da crise demográfica que o país enfrenta às vésperas do quarto aniversário da invasão russa em grande escala, considerada a guerra mais brutal em solo europeu desde 1945.

Segundo a publicação do país vizinho, o declínio populacional já se fazia sentir desde 2014, com o início do conflito no leste do país, mas agravou-se drasticamente após 2022, com o êxodo de milhões de refugiados e a perda de territórios sob controlo de Moscovo. Atualmente, não existem dados oficiais atualizados sobre a população nas áreas controladas por Kiev, uma vez que o Serviço Estatal de Estatísticas deixou de publicar relatórios por considerar a informação estratégica em tempo de guerra. O último censo oficial remonta a 2001.

As estimativas mais recentes apontam para cerca de 29 milhões de habitantes no território sob controlo ucraniano, com uma margem de erro de um milhão. Se forem incluídos os territórios ocupados, o total poderá ascender a 36 milhões. Em janeiro de 2022, antes da invasão em larga escala, a população dentro das fronteiras de 1991 era estimada em aproximadamente 42 milhões.

O impacto demográfico da guerra vai além das perdas militares e civis. Milhões de refugiados — entre os quais predominam mulheres jovens com filhos — deixaram o país. Desde o verão passado, registou-se ainda um aumento do êxodo de jovens, após o Governo ter revogado a proibição de saída para homens com menos de 22 anos. Nos dois meses seguintes à entrada em vigor da lei, os pedidos de proteção temporária na União Europeia atingiram o nível mais elevado.

De acordo com o ‘ABC’, 71% das empresas inquiridas pelo portal de emprego ‘Robota.ua’ reportaram um aumento de pedidos de demissão por parte de trabalhadores com menos de 22 anos após a alteração legislativa, sendo a principal razão a intenção de emigrar. A escassez de mão de obra tornou-se um dos maiores desafios económicos do país. Já em 2024, mais de 70% das empresas estavam severamente afetadas por falta de trabalhadores, segundo a Associação Empresarial Europeia na Ucrânia.

O número de ucranianos sob proteção temporária na Europa ultrapassa os 4,3 milhões, segundo dados do Eurostat referentes ao final de 2025. Analistas ucranianos estimavam, no início do ano passado, que cerca de 5,2 milhões de cidadãos permaneciam no estrangeiro. Uma parte significativa poderá não regressar, mesmo em caso de cessar-fogo.

Histórias individuais ilustram esta tendência. Kateryna Vynohradova, que se refugiou na Galiza com os dois filhos em 2022, afirma que não tenciona regressar de forma definitiva, dado o nível de integração das crianças. Anna Bilyk, que saiu grávida de quatro meses, também descarta a possibilidade de voltar a viver na Ucrânia, mesmo após o fim da guerra.

Uma sondagem do Instituto de Investigação Económica de Munique indica que apenas 30% dos refugiados regressariam se existissem garantias sólidas de segurança, reformas anticorrupção e uma perspetiva clara de adesão à União Europeia. Para muitos, a incerteza quanto à estabilidade futura continua a ser o principal obstáculo ao regresso.

As projeções do Instituto de Demografia de Kiev apontam para uma descida da população para 28,9 milhões em 2041 e 25,2 milhões em 2051, caso as tendências atuais se mantenham. Este “inverno demográfico” traduz-se numa infância marcada pela guerra, com crianças a crescer entre ruínas e sob constante instabilidade.

Com uma reconstrução massiva prevista para o pós-guerra, a Ucrânia poderá enfrentar um paradoxo: necessidade urgente de trabalhadores num país que perde população ativa a um ritmo acelerado. Segundo o ‘ABC’, algumas empresas já recorrem a trabalhadores estrangeiros, nomeadamente da Índia, Bangladesh e Nepal, para preencher vagas.

A guerra não está apenas a redesenhar fronteiras; está a transformar de forma profunda a estrutura demográfica do país, colocando a Ucrânia perante uma das maiores crises populacionais da sua história contemporânea.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.