Explicador: Terceira ronda de negociações Ucrânia-EUA-Rússia arranca hoje. O que está em cima da mesa?

Arranca esta terça-feira, em Genebra, a terceira ronda de negociações trilaterais entre Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, num momento particularmente sensível do conflito, a poucos dias do quarto aniversário da invasão russa lançada em fevereiro de 2022

Pedro Gonçalves
Fevereiro 17, 2026
7:00

Arranca esta terça-feira, em Genebra, a terceira ronda de negociações trilaterais entre Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, num momento particularmente sensível do conflito, a poucos dias do quarto aniversário da invasão russa lançada em fevereiro de 2022. As conversações prolongam-se por dois dias e decorrem num contexto de combates intensos ao longo da frente de cerca de 1.250 quilómetros e de bombardeamentos contínuos sobre áreas civis e infraestruturas energéticas ucranianas.

A reunião sucede a duas rondas anteriores realizadas em Abu Dhabi e acontece enquanto Kiev alerta para a preparação de um novo ataque aéreo de grande escala por parte de Moscovo.



Contexto militar: avisos de novo ataque russo
Na segunda-feira, à partida da delegação ucraniana de Kiev rumo à Suíça, o Presidente Volodymyr Zelenskyy advertiu que a Rússia estaria a preparar um novo “ataque massivo”. O chefe de Estado revelou ter instruído o comandante da força aérea, o ministro da Defesa e o responsável da empresa estatal de eletricidade Ukrenergo a prepararem “medidas adicionais de proteção” ao longo do dia, antecipando um possível agravamento da ofensiva.

Zelenskyy escreveu que “mesmo na véspera das reuniões trilaterais em Genebra, o exército russo não tem outras ordens senão continuar a atacar a Ucrânia”, acrescentando que isso demonstra claramente “como a Rússia encara os esforços diplomáticos dos parceiros”.

Os bombardeamentos russos sobre infraestruturas energéticas deixaram milhões de ucranianos sem eletricidade, água e aquecimento em pleno mês de fevereiro, num dos invernos mais duros desde o início da guerra.

O que vai estar em cima da mesa em Genebra?
De acordo com o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, esta terceira ronda abrangerá um “leque mais vasto de temas” do que as reuniões anteriores nos Emirados Árabes Unidos. Em particular, será discutida aquela que Moscovo considera a questão central: os territórios ucranianos ocupados.

Peskov afirmou que desta vez a intenção é abordar “um leque mais alargado de questões, incluindo as principais relativas aos territórios e tudo o resto”, sublinhando que esses pontos estão diretamente ligados às exigências russas e justificando a presença do chefe da delegação, Vladimir Medinsky.

O principal obstáculo nas rondas anteriores foi a divisão da região de Donetsk, no leste da Ucrânia, da qual mais de 75% se encontra sob controlo russo. Moscovo exige que Kiev entregue as áreas ainda sob administração ucraniana como condição para pôr fim à guerra — exigência rejeitada pelas autoridades de Kiev.

A escolha de Medinsky e o sinal político de Moscovo
A delegação russa será liderada por Vladimir Medinsky, conselheiro presidencial e figura associada à ala ideológica do Kremlin. O seu regresso à liderança das negociações é visto como um possível endurecimento da posição russa.

Medinsky tem um historial de retórica maximalista e é um defensor assumido da invasão em larga escala. Em janeiro de 2025 foi editor de um manual intitulado “Military History of Russia”, que enquadra a guerra contra a Ucrânia como continuação da luta soviética contra a Alemanha nazi e descreve o conflito atual como uma “reação necessária às ameaças do Ocidente”. Já em 2013 declarara que a “perseverança” do povo russo perante as catástrofes do século XX indicaria que os russos teriam “um cromossoma extra”.

Segundo informações divulgadas, os Estados Unidos terão sinalizado a Moscovo que prefeririam limitar o envolvimento de figuras mais radicais como Medinsky no processo negocial.

Quem representa a Ucrânia e quais as prioridades de Kiev?
A Ucrânia mantém a mesma equipa de alto nível das rondas anteriores. A delegação é liderada por Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional, e inclui Kyrylo Budanov, chefe do gabinete presidencial e antigo responsável pelos serviços de informações militares.

Antes da partida, Budanov escreveu nas redes sociais “a caminho de Genebra”, acrescentando que aproveitaria a viagem de comboio para discutir com os restantes membros da delegação “as lições” da história ucraniana e “procurar as conclusões corretas”. Recorde-se que, devido ao encerramento do espaço aéreo desde o início da invasão, as deslocações internacionais da delegação ucraniana são feitas por via terrestre ou ferroviária.

Numa mensagem publicada no sábado, Zelenskyy revelou ter falado telefonicamente com o enviado norte-americano Steve Witkoff e com Jared Kushner, antes da ronda de negociações, afirmando que Kiev espera “reuniões verdadeiramente produtivas”. O Presidente sublinhou ainda que é fundamental haver progressos nas garantias de segurança e na recuperação económica, agradecendo aos Estados Unidos pela “atitude construtiva” ao facilitar o processo.

Kiev tenciona igualmente levantar a questão de um cessar-fogo energético, proposta que Moscovo rejeitou repetidamente no passado. Além disso, segundo Zelenskyy revelou na Conferência de Segurança de Munique, será discutido o funcionamento de uma eventual missão de monitorização caso seja alcançado um cessar-fogo, explicando que, no plano militar, a Rússia terá de aceitar uma missão de supervisão e definir como esta operaria se a guerra terminasse.

O Presidente garantiu que a Ucrânia fará tudo para que ninguém possa acusar Kiev de não querer o fim do conflito.

O papel dos Estados Unidos e os documentos paralelos
Para além de um eventual acordo de paz que terá de ser aceite também pela Rússia, Ucrânia e Estados Unidos estão a preparar dois documentos adicionais. Um prevê compromissos de garantias de segurança por parte de Washington; o outro incide sobre a contribuição norte-americana para a recuperação económica da Ucrânia no pós-guerra.

Desde 24 de fevereiro de 2022, Kiev tem contado com apoio financeiro e militar dos aliados ocidentais, que também impuseram sanções a setores-chave da economia russa com o objetivo de limitar a capacidade de Moscovo de sustentar o esforço de guerra.

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