Trump, Zelensky, Macron (e não só): Fórum Económico Mundial termina hoje e expôs fraturas no Ocidente

Termina esta sexta-feira a reunião anual do Fórum Económico Mundial de Davos 2026, que decorreu entre os dias 19 e 23 na estância suíça, reunindo líderes políticos, empresariais, representantes da sociedade civil e do meio académico sob o lema “Um Espírito de Diálogo”.

Pedro Gonçalves
Janeiro 23, 2026
7:00

Termina esta sexta-feira a reunião anual do Fórum Económico Mundial de Davos 2026, que decorreu entre os dias 19 e 23 na estância suíça, reunindo líderes políticos, empresariais, representantes da sociedade civil e do meio académico sob o lema “Um Espírito de Diálogo”. O encontro ficou, no entanto, marcado por um tom de crescente tensão internacional, com alertas sucessivos para a fragmentação da ordem mundial, o enfraquecimento do multilateralismo, os riscos de um conflito comercial entre os Estados Unidos e a Europa e o impacto disruptivo da inteligência artificial no mercado de trabalho.

Ao longo dos cinco dias de debates, a agenda foi dominada pela presença e pelas posições do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujas intervenções e declarações sobre a Europa, a NATO e a Gronelândia acabaram por moldar grande parte das discussões políticas do fórum.

Um mundo em rutura e a erosão da ordem internacional
No seu aguardado discurso de quarta-feira, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos procuram negociações imediatas sobre a Gronelândia, afastando, no entanto, o recurso à força militar para adquirir o território que integra o Reino da Dinamarca. “Provavelmente não conseguiremos nada, a não ser que eu decida usar força excessiva, o que nos tornaria, francamente, imparáveis. Mas não o farei. Não quero usar a força. Não vou usar a força”, declarou.

Ainda assim, deixou um aviso direto aos aliados da NATO, afirmando que tinham uma escolha: “Podem dizer que sim e ficaremos muito agradecidos. Ou podem dizer que não e iremos lembrar-nos”. Trump voltou a criticar a Europa, afirmando que há zonas do continente “que já nem são reconhecíveis” e sustentando que “não está a ir na direção certa”.

Um dia antes, o Presidente francês, Emmanuel Macron, tinha deixado uma das mensagens mais citadas de todo o fórum, alertando para uma mudança estrutural no sistema internacional. “É uma mudança para um mundo sem regras, onde o direito internacional é pisado e onde a única lei que parece importar é a do mais forte”, afirmou, resumindo as preocupações europeias face ao aumento do unilateralismo. Macron contrapôs que as democracias “preferem o respeito aos valentões” e “o Estado de direito à brutalidade”.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, reforçou a ideia de que o mundo atravessa uma rutura irreversível. “Estamos no meio de uma rutura, não de uma transição, e a antiga ordem mundial não vai voltar”, afirmou, defendendo que as potências intermédias devem agir em conjunto, sob pena de ficarem excluídas das decisões globais. “Se não estamos à mesa, estamos no menu”, resumiu.

Milei, Trump e o regresso aos “valores do Ocidente”
O Presidente da Argentina, Javier Milei, discursou em Davos pelo terceiro ano consecutivo, apresentando o que descreveu como uma profunda transformação económica do país desde que tomou posse, em 2023. Segundo afirmou, o seu governo realizou 13.500 reformas estruturais, num processo que apelidou de “Make Argentina Great Again”.

Num discurso fortemente ideológico, Milei declarou que o Ocidente se afastou das ideias de liberdade e que esse percurso está agora a ser revertido. “Por alguma razão estranha, o Ocidente começou a virar as costas às ideias de liberdade”, disse, acrescentando que “o mundo começou a acordar”, apontando os Estados Unidos como exemplo. “A América será o farol que reacenderá todo o Ocidente”, afirmou, evocando a herança da filosofia grega, do direito romano e dos valores judaico-cristãos.

A intervenção contrastou com o tom adotado pelo governador da Califórnia, Gavin Newsom, que protagonizou uma das declarações mais duras do encontro, acusando líderes europeus de complacência face às exigências de Trump sobre a Gronelândia. “Não consigo aceitar esta cumplicidade. Pessoas a rebolarem-se no chão”, afirmou, acrescentando que os líderes “parecem patéticos no palco mundial”.

Segurança, comércio e o risco de escalada transatlântica
No plano da segurança e das relações transatlânticas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apelou à contenção, alertando para os riscos de uma escalada entre os Estados Unidos e a Europa. “Atirar-nos para uma espiral descendente só ajudaria os adversários que ambos queremos manter fora do panorama estratégico”, afirmou.

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, manifestou preocupação com o desvio de atenções em relação à guerra na Ucrânia. “A questão principal não é agora a Gronelândia, a questão principal é a Ucrânia”, afirmou, sublinhando que Kiev precisa de apoio “agora, amanhã e depois de amanhã”.

Já o presidente do Fórum Económico Mundial, Børge Brende, reconheceu que a ansiedade económica marcou o encontro, num contexto em que os conflitos geopolíticos se sobrepuseram às discussões sobre inovação e crescimento. “Estamos muito preocupados com grandes escaladas de guerras. Isso pode matar o crescimento global”, alertou.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, defendeu a política tarifária da administração Trump, classificando-a como um instrumento legítimo de política externa. “A visão do presidente sempre foi a de que prefere resolver as coisas, e uma tarifa é uma medida menor”, afirmou, avisando os aliados europeus de que retaliar seria “imprudente”.

Inteligência artificial e o futuro do trabalho
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais do balanço de Davos 2026. O CEO da BlackRock, Larry Fink, que assumiu a co-presidência do fórum, reconheceu críticas ao próprio encontro. “Para muitas pessoas, esta reunião parece desfasada do momento: elites numa era de populismo”, afirmou, admitindo que essa crítica tem fundamento.

Fink alertou que a IA pode repetir os erros do capitalismo das últimas décadas, concentrando benefícios nos detentores de dados, modelos e infraestruturas, enquanto ameaça empregos qualificados. Essa visão foi reforçada pelo CEO da Palantir, Alex Karp, que deixou um aviso direto: “Vai destruir empregos nas humanidades”. Segundo afirmou, áreas como a filosofia ou outras disciplinas teóricas terão cada vez mais dificuldade em encontrar espaço no mercado, ao passo que a formação técnica continuará a gerar oportunidades.

Zelensky pede uma Europa que aja e não apenas discuta
Na quinta-feira, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, discursou em Davos logo após a reunião com Donald Trump, deixando uma das intervenções mais críticas em relação à Europa. Começou por recordar o filme O Feitiço do Tempo, comparando a situação atual a uma repetição constante de erros. “Há um ano disse que a Europa precisava de saber defender-se. Um ano passou e nada mudou”, afirmou.

Zelensky criticou o desvio de atenções para a Gronelândia, a resposta tardia a crises como os protestos no Irão e a falta de avanços na responsabilização da Rússia pela guerra na Ucrânia. Lamentou ainda a dificuldade europeia em utilizar ativos russos congelados e em criar um tribunal especial para julgar crimes de guerra.

“A Europa adora discutir o futuro, mas evita agir hoje”, afirmou, defendendo a criação de forças armadas europeias verdadeiramente unidas. Concluiu com uma crítica à fragmentação interna do continente, afirmando que a Europa continua a parecer “mais uma geografia e uma tradição do que uma força política real”.

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