A Tesla prepara-se para uma mudança estratégica profunda, ao anunciar o fim da produção dos modelos Model S e Model X e reforçar o investimento em robótica e inteligência artificial. A decisão surge num momento paradoxal para a empresa: pela primeira vez na sua história, registou uma quebra de receitas e uma queda de 17% nos lucros, mas as ações subiram 2,65% nas negociações pré-mercado. De acordo com o ‘El Economista’, os números financeiros revelam apenas a superfície de uma transformação muito mais estrutural.
A empresa liderada por Elon Musk confirmou que irá descontinuar, já no próximo trimestre, os seus dois modelos mais caros. A fábrica da Califórnia onde eram produzidos será reconvertida para a fabricação dos robôs humanoides Optimus, que a Tesla aponta como um dos pilares do seu futuro. Segundo o jornal diário, a poupança gerada com esta decisão permitirá canalizar cerca de dois mil milhões de euros para investimento na xAI, a empresa de inteligência artificial controlada por Musk.
Durante anos, a Tesla foi o símbolo maior da transição energética e da eletrificação do sector automóvel, beneficiando de uma posição quase hegemónica nos mercados financeiros. Esse cenário mudou. A empresa deixou de ser a maior vendedora mundial de veículos elétricos, enquanto os construtores chineses, com preços mais competitivos, ganham quota de mercado, tanto na China como na Europa e noutras regiões. Ao mesmo tempo, a rentabilidade do setor automóvel tem vindo a deteriorar-se, colocando pressão sobre um modelo de negócio que sustentou o crescimento da Tesla.
Perante este contexto, Elon Musk decidiu reforçar a aposta numa estratégia que vai além da produção de automóveis. Embora a empresa mantenha o seu negócio automóvel, a ambição passa por afirmar a Tesla como um ator central na atual revolução da inteligência artificial. Essa intenção ficou clara com o anúncio do encerramento do Model S e do Model X. “É um pouco triste encerrar a produção, mas faz parte da nossa transição para um futuro autónomo”, afirmou Musk na apresentação de resultados.
O diretor financeiro da Tesla revelou ainda planos para investir cerca de 18 mil milhões de euros no aumento da capacidade produtiva e no desenvolvimento de infraestruturas de inteligência artificial. O novo modelo de negócio assenta no desenvolvimento de robotáxis e de robôs humanoides, áreas que Musk considera determinantes para o futuro da empresa. O empresário tem defendido que o verdadeiro potencial não está nos carros, mas nos robôs, chegando a afirmar que a Tesla poderá atingir uma avaliação superior a 23 mil milhões de euros se concretizar essa visão.
No campo da mobilidade autónoma, a empresa registou um crescimento de 38% no número de subscrições do serviço CyberCabs no último trimestre, alcançando 1,1 milhões de utilizadores. A Tesla planeia expandir o serviço para sete novas cidades durante o verão, após um lançamento inicial em São Francisco, Austin e no Texas, e espera obter aprovação regulatória na Europa e na China nas próximas semanas.
O fim do Model S e do Model X representa também o encerramento simbólico de uma era. Lançados em 2012 e 2015, respetivamente, estes modelos foram fundamentais para a consolidação da marca e integravam, com o Model 3 e o Model Y, o acrónimo S3XY idealizado por Musk. Com a sua retirada, metade desse plano original desaparece. As vendas destes veículos já vinham a cair e estavam agrupadas numa categoria residual que, em 2023, registou pouco mais de 50 mil unidades vendidas, muito abaixo da capacidade instalada da fábrica californiana.
Após o desempenho abaixo das expectativas da Cybertruck, a gama da Tesla fica essencialmente reduzida ao Model 3 e ao Model Y, modelos lançados em 2017 e 2019. Esta redução do portfólio reforça a ideia de que o centro de gravidade da empresa se está a deslocar para fora do setor automóvel, numa altura em que este mercado atravessa uma fase de maior fragilidade.
Paralelamente, a Tesla está a reforçar o ecossistema tecnológico em torno da inteligência artificial. A empresa confirmou um investimento adicional de cerca de 1,8 mil milhões de euros na xAI, além de um montante semelhante já aplicado anteriormente. A estratégia passa por criar sinergias entre a inteligência artificial desenvolvida pela xAI, os robotáxis e os robôs Optimus, que Musk pretende colocar no centro da nova Tesla.
A decisão não é consensual entre os acionistas. Uma votação anterior, de caráter não vinculativo, revelou divisões quanto ao investimento na xAI, apesar de a proposta ter reunido mais votos favoráveis do que contra. Ainda assim, a administração avançou com o plano. Atualmente, as duas empresas já colaboram: a Tesla fornece megapacks à xAI e o Grok, o sistema de IA, está integrado em vários veículos. O objetivo final, porém, é mais ambicioso: fazer da inteligência artificial de Musk o núcleo dos robôs humanoides que a empresa acredita poderem redefinir o seu futuro.




