Os Estados Unidos realizaram mais ataques militares unilaterais em território estrangeiro durante o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump do que ao longo de todo o mandato de quatro anos de Joe Biden, de acordo com dados de uma organização internacional de monitorização de conflitos analisados pela ‘Newsweek’.
Segundo o ‘Armed Conflict Location and Event Data Project’, uma organização sem fins lucrativos que acompanha a violência armada a nível global, Washington ordenou quase 600 ataques militares individuais nos primeiros 12 meses do novo mandato presidencial, abrangendo operações em três continentes contra grupos terroristas, regimes autoritários e cartéis de droga. De acordo com a ‘Newsweek’, este número supera o total de ataques registados durante os quatro anos da administração Biden.
Uma política externa mais agressiva
A utilização mais recente e controversa da força ocorreu há menos de duas semanas, quando os Estados Unidos lançaram ataques contra instalações militares em Caracas e, numa operação paralela de forças especiais, capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua esposa. A operação, descrita por críticos como uma potencial violação do direito internacional, enquadra-se no processo movido por Washington contra Maduro por alegado narcoterrorismo e tráfico de droga.
Apesar de se ter apresentado como um “presidente da paz”, Donald Trump tem vindo a intensificar a retórica e a ação militar contra adversários históricos dos Estados Unidos, como Cuba e o Irão. Em paralelo, tem pressionado a Dinamarca a abdicar do controlo da Gronelândia, território considerado estratégico no Ártico face à crescente influência da China e da Rússia.
Especialistas citados pela ‘Newsweek’ consideram improvável qualquer ação militar americana contra um aliado da NATO por causa da Gronelândia, cenário que significaria, na prática, o colapso da Aliança Atlântica. Já um novo ataque contra o Irão surge como uma possibilidade mais realista, num contexto de protestos internos que ameaçam o regime do líder supremo Ali Khamenei.
Números que marcam uma viragem
Entre 20 de janeiro de 2025 e 5 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram 573 ataques aéreos e com drones, segundo a ACLED. Durante os quatro anos da presidência de Joe Biden, foram registados 494 ataques. Quando contabilizadas operações conjuntas com aliados da coligação internacional, como na Síria e no Iraque contra o Estado Islâmico, o total no segundo mandato de Trump sobe para 658, aproximando-se rapidamente dos 694 ataques realizados durante toda a administração anterior.
No último ano, operações militares americanas foram registadas em pelo menos nove países. A ACLED contabiliza cerca de 1.008 eventos militares envolvendo os EUA no estrangeiro, que terão resultado em aproximadamente 1.093 mortes. Em comparação, durante o mandato de Biden foram registadas 1.648 operações e cerca de 1.518 mortes.
Entre os dados divulgados contam-se mais de 110 alegados traficantes de droga mortos em operações em águas internacionais no Mar das Caraíbas e no Pacífico Oriental, bem como entre 40 e 100 militares, incluindo forças de segurança cubanas, que poderão ter morrido nos recentes ataques cirúrgicos na Venezuela.
Mais de 80% dos ataques aéreos americanos no último ano tiveram como alvo os rebeldes houthis no Iémen, provocando mais de 530 mortos. A crise no Mar Vermelho teve origem durante a presidência de Biden, na sequência da guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza.
Alertas sobre o direito internacional
Na análise citada pela ‘Newsweek’, a ACLED descreve a estratégia do novo mandato de Trump como uma política de “atacar primeiro e perguntar depois”, sublinhando uma abordagem mais rápida e com menos constrangimentos institucionais do que em administrações anteriores.
A diretora-executiva da organização, Clionadh Raleigh, alertou para uma mudança de paradigma na política externa americana, sublinhando que a ideia de que apenas a “moralidade pessoal” do presidente limita a ação militar representa um afastamento das normas internacionais, das instituições multilaterais e das alianças tradicionais. Segundo a responsável, países como a Venezuela, a Colômbia, Cuba ou a Gronelândia estão a ser enquadrados não como Estados soberanos, mas como problemas estratégicos a gerir.
A posição da Casa Branca
A Casa Branca rejeita estas críticas. Em declarações à ‘Newsweek’, a secretária de imprensa adjunta, Anna Kelly, afirmou que o primeiro instinto de Donald Trump continua a ser a diplomacia. Segundo a responsável, o presidente tem recorrido à sua experiência negocial para garantir melhores acordos comerciais, reforçar os compromissos de defesa dos aliados da NATO e pôr fim a vários conflitos armados.














