As autoridades iranianas estão a exigir dinheiro para que as famílias possam recuperar os corpos das vítimas dos protestos que varrem o país. Cada bala disparada passou a ter um custo de 250 milhões de riais iranianos, cerca de 1.760 euros à taxa de câmbio atual. O valor total que algumas famílias têm de pagar atinge vários milhares de euros, numa prática que se tornou uma das formas mais cruéis de repressão do regime.
Segundo relatos de iranianos exilados em Espanha, esta prática não é nova e remonta a pelo menos 2019, sendo utilizada para gerar medo e pressão económica sobre a população.
Medis Tavakoli, iraniana exilada há quatro anos, contou à publicação ‘ABC’ que um estudante de 18 anos de Kerman ficou ferido durante os protestos. As forças de segurança levaram-no do hospital e, quando a família tentou obter informações, foi informada da morte do jovem. Para recuperar o corpo, teria de pagar mil milhões de riais, cerca de 6.000 dólares. A família, sem recursos para tal, ficou impedida de realizar um funeral digno, uma dor descrita como insuportável por Tavakoli.
Outros casos incluem duas amigas mortas após manifestações, cujas famílias tiveram de desembolsar quase 5 mil dólares para recuperar os corpos. Muitos familiares pedem aos hospitais que registem a causa da morte como “acidente”, a fim de reduzir o valor da chamada “indemnização por bala”.
Nezar Minouei, tio de Robina Aminian, estudante iraniana morta durante protestos em Teerão, relatou à ‘CNN’ que a mãe da jovem teve de “praticamente roubar” o corpo da filha. Ao regressarem à cidade natal, Kermanshah, as autoridades apareceram em casa da família exigindo o pagamento, numa demonstração clara da pressão exercida pelo regime.
Persistência de uma prática antiga
Esta estratégia remonta a 2019, quando cerca de 1.500 pessoas morreram em menos de duas semanas durante distúrbios. Desde então, o número de mortos ultrapassa 3.500, com mais de 18.000 detidos. Relatórios de organizações internacionais, incluindo a ‘Reuters’ e o Departamento de Estado dos EUA, já documentaram o pagamento exigido para a recuperação de corpos, confirmando que o Irão continua a utilizar esta prática como método de intimidação.
Colapso dos necrotérios e bloqueio de informações
Médicos iranianos confirmam que todos os necrotérios hospitalares e cemitérios em Teerão estão lotados. Para armazenar os corpos, recorrem a camiões e carrinhas refrigeradas privadas. O regime mantém o país sob bloqueio de comunicações há oito dias, tentando controlar o fluxo de informação e impedir denúncias ao exterior.
Os protestos começaram por causa da situação económica e da inflação, mas evoluíram para manifestações políticas, exigindo a mudança de regime. Inicialmente, o governo respondeu com medidas conciliatórias, incluindo a demissão do responsável do Banco Central, mas a insatisfação popular persistiu. O regime recorreu então à repressão violenta, acusações de terrorismo e bloqueio de informação.














