Será que estamos à beira de atingir o pico?

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

O pico de quê? Pensará o leitor… Pois bem, o pico da extração de petróleo e do consumo de produtos petrolíferos, nomeadamente para fins energéticos.



Quem tem seguido as notícias na comunicação social sobre este tema e quiser fazer um breve apanhado apenas do que surgiu publicado só neste mês de junho, terá oportunidade de verificar certas pistas para esta questão.

Por exemplo, a Agência Internacional da Energia (AIE) aforma que a procura mundial de petróleo continuará a crescer, mas deverá abrandar significativamente até 2028 com a transição para uma economia de energia limpa. A AIE prevê que a procura global de petróleo atinja um máximo ainda antes do final da década, de acordo com um relatório anual publicado no dia 14 de junho, o que é mais cedo do que o esperado, com referência ao relatório do ano anterior. De acordo com estas novas previsões quinquenais a médio prazo, a utilização do petróleo como combustível para os transportes deverá diminuir após 2026.

Mas não são só entidades independentes que concluem do mesmo modo. Mesmo uma empresa petrolífera como a Shell refere que espera “apenas” uma produção de petróleo “estável” até 2030. Sustenta mesmo que já atingiu os seus objetivos de redução de produção ao longo do período, face aos que havia traçado em 2021.

A Organização dos Países Produtores de Petróleo e os seus aliados, liderados pela Rússia (OPEP+), discute a oportunidade de proceder a novo corte na produção de crude para manter as cotações, que caíram desde abril e estavam, no início de junho, a cerca de 70 dólares por barril. A OPEP+ anunciou cortes suplementares da produção no início de abril para um volume total de cerca de 1,6 milhões de barris por dia que vai manter-se até ao final de 2024. Decisão que se soma ao corte de produção de 2 milhões de barris, aprovado em outubro ano passado, para vigorar entre novembro e o final de 2023. A Arábia Saudita anunciou um corte voluntário que vai reduzir a sua oferta de crude em um milhão de barris diários a partir de 1 de julho. Esta decisão ocorreu depois de os preços recuarem nos últimos meses, apesar de terem sido anunciados cortes inesperados em abril.

O consumo de combustíveis em Portugal diminuiu 5,5% em abril, face a março e face ao período homólogo pré-pandémico de 2019, o consumo verificado em abril foi inferior (-4,9 kton). Ou seja, também a nível nacional se nota a tendência que se parece solidificar.

Há até notícia de um país produtor de petróleo que pretende acelerar a sua transição energética. Angola, que foi o maior produtor de petróleo em África em abril, afirma que quer um grande aumento da matriz energética do país com base renovável. Apesar dos receios de que a transição energética em países produtores de petróleo, como é o caso, possa conduzir à perda de empregos não é inevitável que isso aconteça dado que os setores relacionados com a transição energética poderão compensar essas perdas e fornecer alternativas de emprego.

Acresce a tudo isto que a União Europeia afirma que está empenhada em aumentar a produção de energia renovável para pelo menos 42,5% do consumo total até 2030, o que é o dobro dos níveis de 2019. E tem tomado várias medidas para isso, que começam a produzir os seus efeitos.

É também sabido que a Comissão Europeia definiu 2035 como data para o fim da venda dos veículos a combustão. No entanto, a via da eletrificação para a descarbonização da mobilidade ainda poderá vir a ter a “ajuda” dos Low Carbon Liquid Fuels de origem não petrolífera. Sem ser necessário fazer alterações aos motores existentes, é possível utilizar um combustível num motor a combustão emitindo CO2 que é apenas biogénico ou reciclado, não se aumentando a concentração de CO2 na atmosfera. Tudo isto se conjuga para a diminuição da procura dos combustíveis fósseis.

Verifica-se assim que os elevados preços e os problemas de segurança do aprovisionamento exacerbados pela guerra na Ucrânia, estão a acelerar a transição para tecnologias energéticas mais limpas. Isso irá, inevitavelmente, conduzir à diminuição da procura do petróleo, o que já era esperado, mas ocorrerá porventura mais rápido do que o inicialmente previsto.

Por isso me vem à mente o ditado: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura…”.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.