Randstad Insight: Ser humano

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

A energia parece esgotar- se e as ideias arrefecem com a paisagem que ficou cinzenta, sem que se prevejam férias grandes e reconhecendo os riscos do Natal. O novo normal que assumiu a normalidade mas continua a dar-nos os números que nos empurram para casa, demonstra que não estamos mais perto, mas sim mais longe de estarmos juntos.

Estamos zangados. Zangados com as medidas, com as restrições, com a privação, com a política, as notícias e os processos. O desemprego que volta a entrar pela casa adentro, o dinheiro que falta e a paciência que parece desaparecer também.

Estamos tristes. Porque não há beijo, nem abraço. Porque não posso estar e porque o digital não substitui o toque.

Queremos ir para a rua gritar pela vida que queremos de volta, pelo que tínhamos esquecido como importante e que dávamos por garantido. Os olhares que eram acompanhados de sorrisos, o elevador da empresa à hora de ponta, as ruas que se enchiam antes dos espetáculos, os restaurantes que celebravam aniversários e a música que parecia nunca querer dormir. A semana que começava barulhenta num trânsito misturado com turistas e a pressa de chegar. A incapacidade de parar para respirar, apenas para sentir que estávamos vivos.

Hoje, sabemos o valor dessa sensação, mesmo que a saudade nos traga esta contradição de sentimentos. Esta bipolaridade de quem tem medo e de quem só quer arriscar, de quem consome as estatísticas e de quem não acredita em nenhuma verdade se não a sua. Esta nova forma de ser e estar que nos pode afastar ou juntar ainda mais. E, de quem depende? Depende apenas de nós.

Estou vivo, e estar vivo é sempre motivo de alegria. Tenho, além do meu umbigo, os meus. Podem não ser os melhores, mas para mim serão sempre, para mim serão sempre meus. Tenho-me a mim. As minhas capacidades, o que sei que sou capaz de fazer e tudo o que ainda não sei, mas que vou conseguir fazer. Nem sempre me olho ao espelho para reconhecer que o impossível é muitas vezes um rótulo cobarde ou tímido que dou ao que desconheço. Sou este potencial consciente ou inconsciente de que cada segundo é, na verdade, o que eu quiser, o que conseguir fazer com ele, como o consigo gerir e responder ao que me oferece, seja bom, ou seja mau.

Há quem diga que esta é uma visão optimista do ser humano. Acho que não… acho que somos capazes do melhor e do pior. Mas do melhor. Do excepcional, do imprevisto, do fantástico. Temos uma capacidade incrível de adaptação, de superação e de resiliência. De encontrar energias onde pareciam esgotadas e de contagiar com um sorriso uma sala inteira. Esta capacidade de ser humano é que temos de trazer para tudo o que fazemos. Para encontrarmos a melhor forma de gerir as nossas empresas, de reconhecer a importância dos nossos colaboradores, de nos mantermos ligados à distância, de conseguirmos dar quando todos estão a pedir.

Vivemos momentos que só mesmo os humanos conseguem resistir. Momentos de uma guerra invisível, de contra- -informação, de discórdia, de extremismo, de doença, de morte… Um verdadeiro cenário de guerra e de contradições, uma repetição da história noutra escala, noutro enquadramento. Um contexto que nunca nenhuma geração tinha vivido de forma tão próxima e intensa. Um momento que fica para sempre e que vamos ultrapassar com a única arma que sempre resultou na nossa existência. Com a arma da humanidade, da capacidade de trabalharmos juntos na solução, de encontrarmos na ciência a resposta, no coração encontrarmos a igualdade na diferença garantindo que damos a mão, garantindo que ninguém fica de fora. Esta é a combinação para uma nova era, para uma humanidade reforçada onde a razão e a emoção se conjugam numa relação mais equilibrada e transparente, onde a liderança é autêntica e a vida se concilia transformando-se apenas numa, a nossa.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 176 de Novembro de 2020

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