O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho esclareceu hoje, no Porto que não pretende candidatar-se à liderança do PSD nas eleições diretas antecipadas no partido, ontem anunciadas por Luís Montenegro, em jeito de ‘desafio.
Em declarações aos jornalistas, Passos Coelho desvalorizou as críticas que foram apontadas nos últimos dias a Luís Montenegro e ao Governo, ao mesmo tempo que sustentou que virá “sempre a público” fazer declarações “quando discordar de algo dentro do partido” ou relativamente à atividade do Governo do PSD. Em resposta às perguntas afirmou que não pretende “candidatar-se a coisíssima nenhuma”, e sustentou que Montenegro deve “concentrar-se em ser primeiro-ministro”.
“Julgo que não será surpresa para ninguém, porque já o tinha declarado publicamente, que não estou candidato a coisíssima nenhuma”, afirmou, redobrando logo depois a ideia: “Escusam de perder tempo a fazer efabulações sobre o que quero ou não quero ou se quero candidatar-me. No dia em que quiser candidatar-me eu digo. E candidato-me”.
No entanto, Passos Coelho admite a possibilidade de, no futuro, o poder fazer, mas recusou definitivamente motivos de “calendário” ou de “política interna”. O antigo primeiro-ministro social-democrata diz que, se algum dia de facto avançar com uma nova candidatura a um cargo político “será por imperativo de consciência”.
Recorde-se que, ontem, o primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, anunciou a antecipação das eleições diretas para a liderança do partido para o próximo mês de maio, seguidas de congresso logo depois, numa iniciativa apresentada como forma de clarificar o rumo político da organização. A decisão foi comunicada na noite de quarta-feira durante a reunião do Conselho Nacional, no Centro de Congressos de Lisboa, onde o dirigente social-democrata lançou um desafio a quem defenda um “caminho alternativo e diferente” para que avance com uma candidatura à liderança do partido.
Na intervenção inicial, Montenegro defendeu que a antecipação do calendário interno, que deveria ocorrer apenas em setembro ou outubro, dois anos após o 42.º Congresso do PSD, constitui um “contributo para a estabilidade” e uma “oportunidade de clarificação” dentro do partido. O primeiro-ministro sustentou que “será um equívoco gigante” persistirem dúvidas entre os sociais-democratas quanto ao “caminho reformista” seguido pela atual liderança, justificando assim a realização antecipada de eleições internas e de um congresso cujas datas concretas terão ainda de ser aprovadas numa próxima reunião do Conselho Nacional.
Embora nunca tenha mencionado diretamente Pedro Passos Coelho, as declarações de Montenegro surgem após várias intervenções públicas do antigo líder do PSD. Nos últimos dias, Passos criticou a escolha de Luís Neves para o Ministério da Administração Interna e sugeriu que o Governo deveria procurar eleições antecipadas caso a oposição se una contra as alterações à legislação laboral. Afastado do Governo desde 2015, após a chamada “geringonça” liderada por António Costa, e tendo abandonado a liderança do PSD há quase oito anos, Passos Coelho tem afirmado que “não é candidato a coisa nenhuma”, embora admita não excluir um eventual regresso à política ativa. “Se tudo correr bem, por que razão irão buscar-me ao baú da História?”, questionou recentemente numa conferência promovida pelo Instituto Mais Liberdade, estando ainda prevista uma nova intervenção pública no encerramento da cimeira da Associação de Estudantes da Faculdade de Economia do Porto, dedicada ao tema “Instabilidade e Volatilidade Política”.
No Conselho Nacional, a posição de Montenegro recebeu apoio de figuras como o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e o eurodeputado Sebastião Bugalho, que se destacaram na defesa da estratégia do líder social-democrata. O nome de Passos Coelho apenas foi referido explicitamente na fase final da reunião, quando o antigo líder da concelhia de Lisboa Paulo Ribeiro argumentou que o PSD “deve saber ouvir e valorizar as intervenções de Passos Coelho”. Ribeiro acusou Montenegro de incoerência por falar em clarificação sem identificar diretamente o alvo das críticas — alguém que, afirmou, “todos sabiam a quem se estava a dirigir” — e por defender estabilidade enquanto antecipa eleições internas num momento em que “ninguém está a pôr em causa a sua legitimidade”.
Também crítico da liderança, o antigo deputado André Pardal apelou a que o PSD e o Governo procurem “unir e não fraturar” as várias correntes internas do partido e da sociedade civil, criticando que se privilegie apenas “os amigos ou os que concordam consigo”. Pardal apontou ainda “escolhas incompreensíveis” para o Ministério da Administração Interna, defendendo a demissão de Luís Neves e criticando o facto de o antigo diretor da Polícia Judiciária ter transitado para o Governo “sem qualquer período de nojo ou escrutínio eleitoral”. O ex-deputado referiu igualmente o cenário das eleições presidenciais, considerando que Marques Mendes foi um candidato que “não só uniu o PSD, como separou”, acabando por dividir o partido entre “quatro ou mesmo cinco” candidaturas, enquanto o próprio conselheiro nacional declarou apoio a Gouveia e Melo.














